Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Variedades
Semana da Adoção: um ato de amor além dos laços biológicos

ONG Anjos da Vida - realiza 3º edição do evento

Quinta, 23/5/2019 15:14.
Autoridades no palco no lançamento da Semana da Adoção.

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Renata Rutes

O Dia Nacional da Adoção é neste sábado (25), e para lembrar a data a ONG Anjos da Vida – Grupo de Estudos e Apoio à Adoção está realizando a terceira edição da Semana da Adoção de Balneário Camboriú. Com 17 anos de existência, o Grupo já ajudou a ‘criar’ cerca de 50 famílias – desde adoção de uma criança como de grupos de irmãos. Para celebrar essa história, o Página 3 conversou com pessoas que adotaram ou estão na fila para adotar. 

Mesmo com depoimentos diferentes, todos se unem pela mesma causa: o amor incondicional, mostrando que não importa se é biológico ou de coração.

No Brasil, estima-se que haja 48 mil crianças e adolescentes em abrigos, porém somente oito mil estão aptas a serem adotadas. Há 41 mil pessoas interessadas em adotar, porém há barreiras como a lentidão jurídica e a preferência por bebês, além da situação racial, faixa etária e de crianças com alguma deficiência ou doença, que exigem cuidados especiais, e por isso não são ‘escolhidas’ na hora que os futuros pais preenchem a ficha de preferências.

Na região de Balneário Camboriú, o primeiro passo para quem deseja adotar é fazer o curso do Anjos da Vida, que abre duas turmas por ano, formando aproximadamente 22 pessoas por semestre.

As inscrições para a próxima turma iniciam em julho.

Novas formas de famílias

A presidente da ONG Anjos da Vida, Cláudia Negreiros, conta que o número de interessados se mantém, e que as novas formas de família aparecem muito, como os solteiros que querem adotar, além de casais mais velhos e os homoafetivos, formados por duas mulheres ou dois homens. “Essas famílias têm um nível de exigência menor, e não ficam tanto tempo esperando. Quem quer criança mais nova fica mais tempo esperando, já quem aceita as mais velhas ou até grupos de irmãos acaba acelerando o processo”, diz.

Ainda há preferência por bebês, mas Cláudia comemora a mudança de pensamento, lembrando que quem mais espera nos abrigos são as crianças mais velhas.

“A Semana vale muito, nosso Grupo é extremamente importante. Também acompanhamos a família no pós-adoção, com psicólogos, pedagogos... convidamos a comunidade a conhecer a nossa ONG, para se conscientizar e tirar possíveis dúvidas”, destaca.

Cláudia também aguarda na fila, lembrando que a espera é uma gestação longa, muitas vezes muito além dos nove meses. Ela decidiu adotar em 2008, ainda quando morava em Minas Gerais, mas quando voltou para Santa Catarina o processo foi cancelado pela Justiça. Em 2012 ela e o marido Ricardo tiveram o filho Pedro, e quando ele completou três anos resolveram voltar para a fila.

“Já estamos no quarto ano de espera pela nossa filha. Queremos uma menina de até três anos. Meu filho é a pessoa mais ansiosa lá em casa, ele fez o curso com a gente, acompanha todo o processo e entende que pode demorar, mas vamos esperar, acrescenta.

A equipe com as meninas do Projeto Oficinas que cantaram no final.

Adoção é doação: conheça histórias reais desse puro amor 

Jucilene e Armando com a familia filhos, nora e genro

“Já estamos gestando”

Armando Leite, 52 anos, empresário  e Jucilene Baroni Leite, 51 anos, professora do Colégio Aster, estão na fila para adotar.

“Somos casados há 34 anos, temos três filhos biológicos e sempre tivemos vontade de adotar. Temos um filho que vai fazer 34 anos, uma de 32 e um de 12. Nossa família é grande e sempre quisemos mais crianças, e por que não adotar mesmo tendo filhos biológicos? A partir disso nosso sonho se concretizou e entramos na fila para adotar. O João, nosso ‘temporão’ que tem 12 anos é a alegria de casa, e por isso queremos uma criança maior, um menino que faça companhia pra ele, com idade entre oito e 12 anos. Já temos essa vivência com ele e queremos dessa mesma forma. Sabemos que nessa faixa etária é difícil uma criança ser adotada, então gostaríamos muito de conseguir adotar. Nossos filhos aprovaram plenamente, adoraram a ideia. Inclusive minha filha pensa em adotar também. Conhecemos algumas pessoas que já fizeram o curso, casais que também estão na fila de adoção, e fomos indicados e começamos o curso. É muito bom, são profissionais que nos atendem, tiram nossas dúvidas. Como pais já percebemos o quanto vale a pena. A fila é única e temos que respeitar como todo mundo, mas a expectativa é grande e já estamos gestando (risos)”. 


“Estão todos grávidos com a gente”

Silvana Hermes, 38 anos, vendedora, e Jacson Júnior Soberai, 46 anos, instalador, se conheceram quando ainda moravam no Oeste de Santa Catarina. Eles namoraram por um ano e logo casaram. Em Balneário eles moram há nove anos.

“Não temos filhos, já estamos juntos há 14 anos e há quatro tentamos engravidar, mas como não deu certo optamos pela adoção, nem tentamos fazer nenhum tratamento de inseminação, nada. Surgiu a opção de adoção e adoramos. Nosso sonho nunca foi engravidar e sim ter um filho e então decidimos fazer o curso. Faz um ano e quatro meses que estamos na fila. Não temos preferência por sexo, mas pedimos uma criança de até quatro anos. A expectativa é bem angustiante, porque sabemos que demora. A família apoiou, estão todos ‘grávidos’ junto com a gente (risos). Acreditamos que a Semana da Adoção é ideal porque vem para divulgar a causa, que muitas pessoas não conhecem ou tem dúvidas. É uma forma até de mostrar para as mães que não querem ter seus filhos que elas podem entregar a criança e ela será bem acolhida por uma família que a deseja muito”. 


Alan com a mãe e a irmã

“Queria muito mais ser pai”

Alan Augusto da Silva Melo, 27 anos, vendedor, é solteiro e sempre sonhou em adotar. Ele é assumidamente gay, e por isso define que pelas ‘vias naturais’ seria difícil.

“Todos os meus amigos já tinham filhos, sou padrinho de muitos. Eu via mensagens de adoção e comecei a sentir que era o meu destino. Eu queria muito mais ser pai do que ser marido, por exemplo, e comecei a ver que se caso eu encontrasse alguém, o filho seria só meu (risos). Então encontrei o Anjos da Vida e fiz o curso há um ano. Vejo que mudei totalmente depois disso e gostei muito. Eu pensava que já veria a criança logo, e na verdade tem toda uma preparação. Eu tenho preferência por um menino de cinco a 10 anos, e mesmo o processo sendo lento por eu ter pedido uma criança mais velha não tende a demorar tanto, mas a expectativa é grande. No curso percebi que muitos queriam bebêzinhos, e o Anjos trabalha exatamente nessa parte da adoção tardia. Meus amigos e minha família já viam o desejo que eu tinha e após eu fazer o curso aumentou ainda mais o apoio. É uma gestação, todos perguntam e dão força. A Semana da Adoção com certeza é muito importante, pois consegue alcançar muitas pessoas interessadas que tinham dúvidas, e é mais fácil do que parece”. 


“Adotar mudou minha vida”

Eloá Regina Oliani, 54 anos, é artesã, mas nesse ano está se dedicando aos filhos adotivos, Bernardo, de 8 anos e Lara, de 7 anos.

“Aos 41 anos eu descobri que não podia ter filhos. Fui a um médico de fertilização, mas eu teria que utilizar óvulos de uma doadora, então meu irmão me deu a ideia de adotar, pois mãe é quem cuida. Fiz o Curso do Anjos, fiquei na fila, participei do grupo de apoio. Depois de cinco anos veio o Bernardo, que tinha quatro meses. No primeiro momento tive medo, mas Deus foi maravilhoso e deu tudo certo. A Lara veio depois de um ano, com três meses. Hoje ele tem oito anos e ela sete. É algo maravilhoso e que eu sempre quis, pois vim de uma família de muitos irmãos, fiz uma casa grande para receber a todos. Adotar mudou a minha vida, meus filhos preenchem os meus dias. Nossa vida é maravilhosa, o dia a dia é cheio. Não tenho tempo para ficar mal, pois sempre estou com eles. Não me arrependo de absolutamente nada. Eles são muito apegados com a minha família, absorveram totalmente, e também tem o fato de que minha mãe é adotada e tenho uma sobrinha que também é. Então é muito legal, todos ajudam na criação deles. É claro que  existem as dificuldades no dia a dia, existem brigas às vezes, mas todos nós fazemos terapia e o Anjos da Vida nos apoia até hoje, estamos sempre em contato. A Semana da Adoção é uma ação maravilhosa, pois a adoção precisa ser mais divulgada. A espera exige paciência, tem vezes que você quer desistir, mas eu vejo que tudo acontece na hora certa e quando acontece vale a pena, porque é um mundo de amor que só cresce. Meus filhos tem consciência que são adotados e eles mesmo dizem que são meus filhos do coração. Vejo que algumas mães nascem para parir e outras para cuidar. Adoção é amor, é vida”.


“Nossos filhos são muito simpáticos”

A reportagem também conversou com um casal homoafetivo de empresários moradores da região, que adotaram há três anos quatro irmãos. Eles preferiram se manter em anônimo.

“Estamos casados, eu e meu marido, há seis anos, mas estamos juntos há 10. Quando pudemos casar no Civil decidimos entrar também com o pedido de adoção. O processo levou três anos. Adotamos quatro irmãos biológicos, porém de pais diferentes. Dois são gêmeos idênticos e têm quatro anos, e temos também uma menina de 7 anos e um menino de 5, que são filhos do mesmo pai. Inicialmente não solicitamos adoção em grupo, mas eu tinha esse desejo. Meu marido não concordou, mas na hora de preencher a ficha de preferências ele colocou duas crianças e que aceitava conversar para outra situação. Inicialmente já nos apresentaram os quatro, e era exatamente como eu desejava. O primeiro contato foi no lar onde eles estavam e não houve resistência. Os gêmeos não tinham nem um ano e meio, e no segundo encontro já conseguimos ‘quebrar a barreira’ e nos aproximamos. Os dois mais velhos, a menina e o menino, nos receberam muito bem. Do dia que nos conhecemos até quando os levamos para casa foram três meses. Sabemos que chamamos atenção e os nossos filhos são muito simpáticos, já se apresentam dizendo que eles têm dois pais. Temos alguns problemas com a nossa filha, para ela é um pouco complicado ver que não há a presença da mãe, principalmente porque ela ainda lembra dela, mas é uma situação com a qual temos que lidar. A adoção sempre foi algo muito normal na minha vida, pois eu e minha irmã somos filhos adotivos e isso nunca foi um fardo, eu nunca quis saber da minha história passada. Sou filho dos meus pais e pronto. Nossos filhos são muito tranquilos, sabem que são adotivos. Falamos para eles que a mãe biológica deles teve problemas e não pôde ficar com eles, mas que somos uma família feliz. Todos nos adaptamos bem e sentimos falta quando estamos longe, pois eu e meu marido precisamos viajar a trabalho, mas sempre combinamos de um pai estar presente. Ele estava viajando por 15 dias e voltou nessa semana, chegou a ligar chorando de saudade, fizemos ligação em vídeo. É corrido e cansativo, mas vale a pena. Nossos filhos são educados com rigor, se alimentam e tomam banho na hora que mandamos, dormem às 20h30 e acordam às 8h e não saem da cama sem que eu e meu marido os tirem. Eram regras do abrigo e nós resolvemos manter. Tudo vale a pena, é muito amor”. 


“Estamos vivendo o primeiro de tudo”

Ana Virgínia Freitas de Luna, 51 anos, assistente social e psicóloga está com a guarda provisória da Gisele, de 9 anos, e por isso preferiu não divulgar foto das duas.

“Sou solteira e sempre tive vontade de adotar, mas sempre prorroguei isso. Com 45 anos entrei na lista de adoção, através do curso do Anjos da Vida. Solicitei que fosse uma menina entre quatro e seis anos. Fiquei três anos na fila e há oito meses estou com a Gisele. Ela já estava no abrigo há algum tempo, pois a mãe biológica dela faleceu. Ela me chamou de tia por cinco meses, fomos criando um vínculo e do nada ela passou a me chamar de mãe e continuamos assim. No começo é estranho, ninguém sai totalmente apaixonado, mas o nosso primeiro Dia das Mães juntas foi muito emocionante. Na verdade, estamos vivendo o primeiro de tudo. Exige paciência, pois os desafios são vários, para nós está sendo principalmente o de adaptação escolar, pois ela não estava acostumada a ser cobrada. Às vezes a criança idealiza que mãe é só a parte boa, e eu mando ela estudar, escovar os dentes, tomar banho, dormir, etc, mas aos poucos tudo vai dando certo. Ainda temos muitos desafios, mas já estamos nos adaptando. Requer muita paciência, amor, disponibilidade, atenção. São crianças que foram muito negligenciadas e que também necessitam de pulso firme. A presença do Anjos é fundamental, pois fazemos acompanhamento semanal, somos atendidas por psicólogos e pedagogos. A equipe é bem participativa e presente. A Semana da Adoção é sem dúvidas fundamental, pois há um número imenso de crianças esperando para serem amadas e acolhidas, mas é necessário todo o processo, pois nem tudo são flores e existem muitos desafios. Você precisa amadurecer a idade e ter em mente que é uma vida que está em jogo. Não é porque criança foi adotada que será um bonequinho, ela vai fazer birra e te desafiar. É uma criança como qualquer outra, que exige cuidados e muita atenção e amor”.


 


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Página 3
Autoridades no palco no lançamento da Semana da Adoção.
Autoridades no palco no lançamento da Semana da Adoção.

Semana da Adoção: um ato de amor além dos laços biológicos

ONG Anjos da Vida - realiza 3º edição do evento

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Quinta, 23/5/2019 15:14.

Renata Rutes

O Dia Nacional da Adoção é neste sábado (25), e para lembrar a data a ONG Anjos da Vida – Grupo de Estudos e Apoio à Adoção está realizando a terceira edição da Semana da Adoção de Balneário Camboriú. Com 17 anos de existência, o Grupo já ajudou a ‘criar’ cerca de 50 famílias – desde adoção de uma criança como de grupos de irmãos. Para celebrar essa história, o Página 3 conversou com pessoas que adotaram ou estão na fila para adotar. 

Mesmo com depoimentos diferentes, todos se unem pela mesma causa: o amor incondicional, mostrando que não importa se é biológico ou de coração.

No Brasil, estima-se que haja 48 mil crianças e adolescentes em abrigos, porém somente oito mil estão aptas a serem adotadas. Há 41 mil pessoas interessadas em adotar, porém há barreiras como a lentidão jurídica e a preferência por bebês, além da situação racial, faixa etária e de crianças com alguma deficiência ou doença, que exigem cuidados especiais, e por isso não são ‘escolhidas’ na hora que os futuros pais preenchem a ficha de preferências.

Na região de Balneário Camboriú, o primeiro passo para quem deseja adotar é fazer o curso do Anjos da Vida, que abre duas turmas por ano, formando aproximadamente 22 pessoas por semestre.

As inscrições para a próxima turma iniciam em julho.

Novas formas de famílias

A presidente da ONG Anjos da Vida, Cláudia Negreiros, conta que o número de interessados se mantém, e que as novas formas de família aparecem muito, como os solteiros que querem adotar, além de casais mais velhos e os homoafetivos, formados por duas mulheres ou dois homens. “Essas famílias têm um nível de exigência menor, e não ficam tanto tempo esperando. Quem quer criança mais nova fica mais tempo esperando, já quem aceita as mais velhas ou até grupos de irmãos acaba acelerando o processo”, diz.

Ainda há preferência por bebês, mas Cláudia comemora a mudança de pensamento, lembrando que quem mais espera nos abrigos são as crianças mais velhas.

“A Semana vale muito, nosso Grupo é extremamente importante. Também acompanhamos a família no pós-adoção, com psicólogos, pedagogos... convidamos a comunidade a conhecer a nossa ONG, para se conscientizar e tirar possíveis dúvidas”, destaca.

Cláudia também aguarda na fila, lembrando que a espera é uma gestação longa, muitas vezes muito além dos nove meses. Ela decidiu adotar em 2008, ainda quando morava em Minas Gerais, mas quando voltou para Santa Catarina o processo foi cancelado pela Justiça. Em 2012 ela e o marido Ricardo tiveram o filho Pedro, e quando ele completou três anos resolveram voltar para a fila.

“Já estamos no quarto ano de espera pela nossa filha. Queremos uma menina de até três anos. Meu filho é a pessoa mais ansiosa lá em casa, ele fez o curso com a gente, acompanha todo o processo e entende que pode demorar, mas vamos esperar, acrescenta.

A equipe com as meninas do Projeto Oficinas que cantaram no final.

Adoção é doação: conheça histórias reais desse puro amor 

Jucilene e Armando com a familia filhos, nora e genro

“Já estamos gestando”

Armando Leite, 52 anos, empresário  e Jucilene Baroni Leite, 51 anos, professora do Colégio Aster, estão na fila para adotar.

“Somos casados há 34 anos, temos três filhos biológicos e sempre tivemos vontade de adotar. Temos um filho que vai fazer 34 anos, uma de 32 e um de 12. Nossa família é grande e sempre quisemos mais crianças, e por que não adotar mesmo tendo filhos biológicos? A partir disso nosso sonho se concretizou e entramos na fila para adotar. O João, nosso ‘temporão’ que tem 12 anos é a alegria de casa, e por isso queremos uma criança maior, um menino que faça companhia pra ele, com idade entre oito e 12 anos. Já temos essa vivência com ele e queremos dessa mesma forma. Sabemos que nessa faixa etária é difícil uma criança ser adotada, então gostaríamos muito de conseguir adotar. Nossos filhos aprovaram plenamente, adoraram a ideia. Inclusive minha filha pensa em adotar também. Conhecemos algumas pessoas que já fizeram o curso, casais que também estão na fila de adoção, e fomos indicados e começamos o curso. É muito bom, são profissionais que nos atendem, tiram nossas dúvidas. Como pais já percebemos o quanto vale a pena. A fila é única e temos que respeitar como todo mundo, mas a expectativa é grande e já estamos gestando (risos)”. 


“Estão todos grávidos com a gente”

Silvana Hermes, 38 anos, vendedora, e Jacson Júnior Soberai, 46 anos, instalador, se conheceram quando ainda moravam no Oeste de Santa Catarina. Eles namoraram por um ano e logo casaram. Em Balneário eles moram há nove anos.

“Não temos filhos, já estamos juntos há 14 anos e há quatro tentamos engravidar, mas como não deu certo optamos pela adoção, nem tentamos fazer nenhum tratamento de inseminação, nada. Surgiu a opção de adoção e adoramos. Nosso sonho nunca foi engravidar e sim ter um filho e então decidimos fazer o curso. Faz um ano e quatro meses que estamos na fila. Não temos preferência por sexo, mas pedimos uma criança de até quatro anos. A expectativa é bem angustiante, porque sabemos que demora. A família apoiou, estão todos ‘grávidos’ junto com a gente (risos). Acreditamos que a Semana da Adoção é ideal porque vem para divulgar a causa, que muitas pessoas não conhecem ou tem dúvidas. É uma forma até de mostrar para as mães que não querem ter seus filhos que elas podem entregar a criança e ela será bem acolhida por uma família que a deseja muito”. 


Alan com a mãe e a irmã

“Queria muito mais ser pai”

Alan Augusto da Silva Melo, 27 anos, vendedor, é solteiro e sempre sonhou em adotar. Ele é assumidamente gay, e por isso define que pelas ‘vias naturais’ seria difícil.

“Todos os meus amigos já tinham filhos, sou padrinho de muitos. Eu via mensagens de adoção e comecei a sentir que era o meu destino. Eu queria muito mais ser pai do que ser marido, por exemplo, e comecei a ver que se caso eu encontrasse alguém, o filho seria só meu (risos). Então encontrei o Anjos da Vida e fiz o curso há um ano. Vejo que mudei totalmente depois disso e gostei muito. Eu pensava que já veria a criança logo, e na verdade tem toda uma preparação. Eu tenho preferência por um menino de cinco a 10 anos, e mesmo o processo sendo lento por eu ter pedido uma criança mais velha não tende a demorar tanto, mas a expectativa é grande. No curso percebi que muitos queriam bebêzinhos, e o Anjos trabalha exatamente nessa parte da adoção tardia. Meus amigos e minha família já viam o desejo que eu tinha e após eu fazer o curso aumentou ainda mais o apoio. É uma gestação, todos perguntam e dão força. A Semana da Adoção com certeza é muito importante, pois consegue alcançar muitas pessoas interessadas que tinham dúvidas, e é mais fácil do que parece”. 


“Adotar mudou minha vida”

Eloá Regina Oliani, 54 anos, é artesã, mas nesse ano está se dedicando aos filhos adotivos, Bernardo, de 8 anos e Lara, de 7 anos.

“Aos 41 anos eu descobri que não podia ter filhos. Fui a um médico de fertilização, mas eu teria que utilizar óvulos de uma doadora, então meu irmão me deu a ideia de adotar, pois mãe é quem cuida. Fiz o Curso do Anjos, fiquei na fila, participei do grupo de apoio. Depois de cinco anos veio o Bernardo, que tinha quatro meses. No primeiro momento tive medo, mas Deus foi maravilhoso e deu tudo certo. A Lara veio depois de um ano, com três meses. Hoje ele tem oito anos e ela sete. É algo maravilhoso e que eu sempre quis, pois vim de uma família de muitos irmãos, fiz uma casa grande para receber a todos. Adotar mudou a minha vida, meus filhos preenchem os meus dias. Nossa vida é maravilhosa, o dia a dia é cheio. Não tenho tempo para ficar mal, pois sempre estou com eles. Não me arrependo de absolutamente nada. Eles são muito apegados com a minha família, absorveram totalmente, e também tem o fato de que minha mãe é adotada e tenho uma sobrinha que também é. Então é muito legal, todos ajudam na criação deles. É claro que  existem as dificuldades no dia a dia, existem brigas às vezes, mas todos nós fazemos terapia e o Anjos da Vida nos apoia até hoje, estamos sempre em contato. A Semana da Adoção é uma ação maravilhosa, pois a adoção precisa ser mais divulgada. A espera exige paciência, tem vezes que você quer desistir, mas eu vejo que tudo acontece na hora certa e quando acontece vale a pena, porque é um mundo de amor que só cresce. Meus filhos tem consciência que são adotados e eles mesmo dizem que são meus filhos do coração. Vejo que algumas mães nascem para parir e outras para cuidar. Adoção é amor, é vida”.


“Nossos filhos são muito simpáticos”

A reportagem também conversou com um casal homoafetivo de empresários moradores da região, que adotaram há três anos quatro irmãos. Eles preferiram se manter em anônimo.

“Estamos casados, eu e meu marido, há seis anos, mas estamos juntos há 10. Quando pudemos casar no Civil decidimos entrar também com o pedido de adoção. O processo levou três anos. Adotamos quatro irmãos biológicos, porém de pais diferentes. Dois são gêmeos idênticos e têm quatro anos, e temos também uma menina de 7 anos e um menino de 5, que são filhos do mesmo pai. Inicialmente não solicitamos adoção em grupo, mas eu tinha esse desejo. Meu marido não concordou, mas na hora de preencher a ficha de preferências ele colocou duas crianças e que aceitava conversar para outra situação. Inicialmente já nos apresentaram os quatro, e era exatamente como eu desejava. O primeiro contato foi no lar onde eles estavam e não houve resistência. Os gêmeos não tinham nem um ano e meio, e no segundo encontro já conseguimos ‘quebrar a barreira’ e nos aproximamos. Os dois mais velhos, a menina e o menino, nos receberam muito bem. Do dia que nos conhecemos até quando os levamos para casa foram três meses. Sabemos que chamamos atenção e os nossos filhos são muito simpáticos, já se apresentam dizendo que eles têm dois pais. Temos alguns problemas com a nossa filha, para ela é um pouco complicado ver que não há a presença da mãe, principalmente porque ela ainda lembra dela, mas é uma situação com a qual temos que lidar. A adoção sempre foi algo muito normal na minha vida, pois eu e minha irmã somos filhos adotivos e isso nunca foi um fardo, eu nunca quis saber da minha história passada. Sou filho dos meus pais e pronto. Nossos filhos são muito tranquilos, sabem que são adotivos. Falamos para eles que a mãe biológica deles teve problemas e não pôde ficar com eles, mas que somos uma família feliz. Todos nos adaptamos bem e sentimos falta quando estamos longe, pois eu e meu marido precisamos viajar a trabalho, mas sempre combinamos de um pai estar presente. Ele estava viajando por 15 dias e voltou nessa semana, chegou a ligar chorando de saudade, fizemos ligação em vídeo. É corrido e cansativo, mas vale a pena. Nossos filhos são educados com rigor, se alimentam e tomam banho na hora que mandamos, dormem às 20h30 e acordam às 8h e não saem da cama sem que eu e meu marido os tirem. Eram regras do abrigo e nós resolvemos manter. Tudo vale a pena, é muito amor”. 


“Estamos vivendo o primeiro de tudo”

Ana Virgínia Freitas de Luna, 51 anos, assistente social e psicóloga está com a guarda provisória da Gisele, de 9 anos, e por isso preferiu não divulgar foto das duas.

“Sou solteira e sempre tive vontade de adotar, mas sempre prorroguei isso. Com 45 anos entrei na lista de adoção, através do curso do Anjos da Vida. Solicitei que fosse uma menina entre quatro e seis anos. Fiquei três anos na fila e há oito meses estou com a Gisele. Ela já estava no abrigo há algum tempo, pois a mãe biológica dela faleceu. Ela me chamou de tia por cinco meses, fomos criando um vínculo e do nada ela passou a me chamar de mãe e continuamos assim. No começo é estranho, ninguém sai totalmente apaixonado, mas o nosso primeiro Dia das Mães juntas foi muito emocionante. Na verdade, estamos vivendo o primeiro de tudo. Exige paciência, pois os desafios são vários, para nós está sendo principalmente o de adaptação escolar, pois ela não estava acostumada a ser cobrada. Às vezes a criança idealiza que mãe é só a parte boa, e eu mando ela estudar, escovar os dentes, tomar banho, dormir, etc, mas aos poucos tudo vai dando certo. Ainda temos muitos desafios, mas já estamos nos adaptando. Requer muita paciência, amor, disponibilidade, atenção. São crianças que foram muito negligenciadas e que também necessitam de pulso firme. A presença do Anjos é fundamental, pois fazemos acompanhamento semanal, somos atendidas por psicólogos e pedagogos. A equipe é bem participativa e presente. A Semana da Adoção é sem dúvidas fundamental, pois há um número imenso de crianças esperando para serem amadas e acolhidas, mas é necessário todo o processo, pois nem tudo são flores e existem muitos desafios. Você precisa amadurecer a idade e ter em mente que é uma vida que está em jogo. Não é porque criança foi adotada que será um bonequinho, ela vai fazer birra e te desafiar. É uma criança como qualquer outra, que exige cuidados e muita atenção e amor”.


 


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