Jornal Página 3
PÁGINA 3 / Saúde
Famílias: Coronavírus afeta a rotina e força novos hábitos

Famílias reunidas em tempo integral abre novos caminhos para convivência

Quinta, 26/3/2020 8:32.

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A principal medida contra o Coronavírus é a permanência em casa, apenas comércios essenciais como mercados e farmácias seguem abertos. Com a suspensão das aulas presenciais e o trabalho sendo principalmente home office, as famílias estão em suas residências, mas passando por um momento inédito: não é férias, mas a rotina também não é a mesma de sempre. Quais são as principais mudanças? Como é para as crianças? O Página 3 conversou com pais que dividem um pouco de como vem sendo esse período, que ainda não tem data para acabar.

Mudou muito a sua vida? Então você precisa pensar que vida está (te) levando.

Caroline só está sentindo falta do ajuntamento da criançada do bairro.

Caroline Cezar, observa, escreve, cria, participa, observa de novo

“É comum os amigos perguntarem 'como está aí', em razão do momento que vivemos, e achei engraçado porque muitos comentaram, "ah, pra ti está tudo igual né".

Claro que sinto por esse trágico panorama mundial, e no nosso país ainda soma-se a esdrúxula questão política, com um "líder" que convida à divisão e não a união, mesmo nesse momento caótico.

Mas por aqui, realmente, as coisas estão calmas. Adoro estar em casa, e a solitude pra mim é uma necessidade básica, muito mais essencial que papel higiênico, que há anos praticamente não uso. Essa prática de ficar comigo mesma nem sempre é agradável (risos), mas um exercício constante para seguir caminhando. Eu gosto de andar descalça, acompanhar o ritmo natural do dia, das estações, luas e marés, gosto de estar perto do povo nativo, que ainda preserva algumas tradições e tem conhecimento da terra, da pesca artesanal, plantas e por aí vai. Cozinho minha comida todos os dias, e procuro ingredientes com mais vitalidade possível, muitos colhidos na hora. Minha vizinhança costuma dividir, quando tem banana, limão, abóbora, maracujá, abacate, ameixa, goiaba, é natural estender a alguém. Crio meus filhos, isso é bem natural pra mim, me pergunto quando a sociedade normatizou que as crianças sejam cuidadas por terceiros. Isso não significa se exaurir e inventar mil atividades, quando a rotina se estabelece de maneira natural, os ritmos são orgânicos, e todo mundo acaba tendo seu tempo. Por aqui temos senso de comunidade, por isso existem apoios, revezamentos e trocas, um cuidado mútuo entre adultos e crianças. Tempo de descanso, de movimento, de alimento e de pausa, de trabalho e lazer, tempo consigo mesmo e tempo com o outro.

Tenho muitos amigos que vivem uma vida mais orgânica e todos eles estão muito bem. Plantando, colhendo, brincadeiras livres com a criança, práticas de higiene mental e física (yoga, meditação, dança), banho de rio, água pura, alimento saudável, música, leituras, aprofundamentos, estudos.

O que mais mudou aqui na minha rotina é que os adolescentes estão só em casa, eles realmente sentem mais, por estar longe da turma e porque estão limitados com as saídas, e idas ao mercado, comprar chocolates e outros supérfluos (risos). Mas a gente sobrevive, e aproveita pra limpar por dentro também, estreitar os vínculos, conversar, e também se desentender pra chegar no entendimento, perceber que somos diferentes, cada um funciona de um jeito. É um exercício interessante, cultivar a individualidade estando junto.

Antes de pandemia, já enxergava todo esse caos fermentando, o homem achando que é imperador da Terra, isso é ignorante, porque é claro que ele não enxerga que faz parte desse organismo, senão não faria tão mal a si mesmo. Era bem fácil prever que estava próximo desse sistema colapsar, até aqui onde moro e consigo ter essa vida mais agreste essa é uma discussão constante. Eles chamam de nome bonito, "progresso", "desenvolvimento", "turismo sustentável", mas precisa pouca inteligência para entender que é exaurir a terra para ganhar dinheiro, explorar as riquezas que recebemos e deveríamos zelar, para vender "metros quadrados", encher o bolso de dinheiro (e de doença, e da escravidão de uma vida de consumo).

Desejo que todos usem esse tempo para aprofundar-se em si mesmo, observar a maneira que usufruem dessa vida, que lhes foi dada. Passar grande parte do dia na internet compartilhando negatividade (ou o outro extremo), não vai ajudar ninguém, só alimenta mais do mesmo. O que é realmente importante pra você? Isso contribui ou exaure o planeta? (olá, você está aqui). Pergunte aos seus avós como acontecia a vida. Observe os povos originários. Percebe a naturalidade da vida. Por que você está trancado nesse lugar? Se mudou muito a sua vida você realmente precisa avaliar que vida está (te) levando”.


“Tem sido prazeroso, mas sentem por não poderem brincar e interagir”

Brincadeiras distraem as meninas durante os dias;

Banho de mangueira animou a quarentena.

Francilene Laureano Moreira Krzisch, 41 anos, e Marcos Emerson Krzisch, 42 anos, são pais de Laura Giulia Moreira Kzisch, 7 anos, e Helena Giovanna Moreira Krzisch, 3 anos

“A nossa rotina é frenética, pois temos duas crianças: Laura Giulia (7 anos) e Helena Giovanna (3 anos) que estudam no período da tarde. Pelo menos em duas manhãs levamos mais cedo para a escola buscando conciliar as atividades extra curriculares delas com compromissos de trabalho que preciso assumir além da carga horária (atendimento a casos específicos, palestras, entrevistas e contatos com rede de atendimento, pois atuo como assistente social judiciária em Itajaí). Nas demais manhãs dedico-me aos cuidados delas (almoço, tarefas, consultas e demais demandas cotidianas) e meu esposo às leva para a escola. Como meu esposo trabalha muito além da carga horária comercial sou eu quem as busco na maioria dos dias na escola e como trabalho até às 19hs (Itajaí) minhas filhas são sempre uma das últimas crianças a serem buscadas. Quando preciso ministrar algum curso ou participar de reuniões à noite meu esposo fica com elas ou atribuímos os cuidados aos meus pais e eventualmente a minha sogra ou a minha vizinha e secretária do lar (todos idosos). Meu esposo tem uma rotina ainda mais agitada, pois além de atuar como advogado é muito ativo em vários movimentos sociais e na OAB (subseção e seccional), tendo que participar de várias reuniões além do horário de expediente. Está na fase de conclusão do mestrado e necessita dedicar-se à elaboração da dissertação, normalmente nos fins de semana. Desde quarta-feira (18/03) eu e as meninas estamos confinadas em nossa residencia. Liberei minha secretaria do lar para cumprir sua quarentena em casa, a fim de que não sejamos vetores do vírus e nem estejamos mais expostos ao contágio pela interação. Desde então, não recebemos a visita de ninguém em casa e o contato com vizinhos se restringe a metros de distância. Moramos em um condomínio horizontal (de casas) e eventualmente as crianças brincam no condomínio com certa naturalidade. Contudo, proibimos veemente as nossas de interagir. Por alguns momentos as libero para tomar um ar livre, andar de patinete, desde que não tenham a possibilidade de interação com outras crianças, a fim de minimizar as possibilidades de contágio. Meu esposo continua indo ao escritório em horário de expediente, mas sem atendimento ao público. Aproveita o momento para atividades do trabalho, mas principalmente para a escrita da dissertação e tem priorizado os fins de semana e às noites para estarmos todos juntos em casa, a fim de minimizar o impacto da quarentena para mim e para as crianças. Como estou atuando em home office busco driblar as tarefas da casa, cuidado das filhas e as atribuições de trabalho, em horários que elas estão dormindo ou entretidas em outras atividades. Para as crianças, até o momento, tem sido prazeroso, mas sentem pelo fato de não poderem brincar no condomínio e interagir com os amiguinhos, contudo explicamos com muito afeto e firmeza e elas tem compreendido, superando nossas expectativas. Temos buscado dedicar nossa atenção as necessidades delas, buscando várias atividades lúdicas (teatro, teatros de fantoches, pinturas, leituras, artes em geral), brincadeiras (banho de mangueira, dança, música, stop), atividades culinárias e de tarefas domésticas (organização de brinquedo, estender roupas no varal), tarefas escolares, principalmente com a maior (2º ano), buscado aproveitar esses momento para estabelecer mais proximidade e atenção. buscado contornar os momentos de tédio e saudade da escola e amigos com muito afeto e disponibilidade em tirá-las do foco do confinamento, aproveitando para dar muito colo e afeto. Sendo resilientes compreendemos que esse momento tem muito a nos ensinar como pais e seres humanos, pois essa necessidade de parar nos coloca a reflexão de que vivemos uma vida muito tumultuada em que as prioridades estão invertidas, de que não há tempo para coisas realmente essenciais e significantes. De que temos muito mais o que agradecer do que almejar. De que muitos necessitam de condições mínimas para uma vida digna, pois tantos nem podem estar em suas casas porque simplesmente não tem um teto. De que precisamos pensar mais no coletivo para termos uma sociedade mais justa e digna: saneamento básico, habitação, saúde de qualidade. Que a impossibilidade de um contato físico com familiar e amigo nos mostra o valor das nossas relações. De que somos muito mais vulneráveis e impotentes do que imaginávamos. De que Deus é quem nos sustenta e cada vez mais temos a necessidade de buscá-lo para acreditar no amanhã”.


“Estamos tendo uma convivência que a rotina corrida não permitia”

Daiana e os filhos, Juju, Miguel e Gabriel brincam no quintal de casa;

Juliana aprendeu a fazer bolo na quarentena

Daiana Franciele Lamin, 34 anos, monitora de transporte escolar é mãe de Eduardo, 14 anos, Juliana, 8 anos, e dos gêmeos Gabriel e Miguel, 3 anos

“Nossa rotina costuma ser bem agitada, todos acordamos cedo, às 6h. Eu e meu esposo, Juliano, temos quatro filhos, o Dudu, a Juliana, e os pequenos, Gabriel e Miguel. Os maiores iam pra escola e os gêmeos pra creche, eu e o Juliano também trabalhamos fora. Eu chegava bem agitada, cansada, as crianças também, mas tinham pique de brincar, de se exercitarem, correr, gritar... nossa vida é agitada, até umas 20h, 22h. Com a quarentena está sendo algo bem diferente, todos trancados em casa juntos e sem poder sair. As crianças brincavam na rua o dia inteiro, aos fins de semana, e quando chegavam da escola também, a partir dos decretos os portões foram trancados, as crianças se isolaram, a rua está um silêncio. No início ficamos perdidos, não sabíamos como agir, e aos poucos os dias foram passando, fomos entrando em um período de conversa, olhando os noticiários, vendo o que estava acontecendo e isso foi nos confortando sabendo que estamos em casa e seguros. Desde quarta-feira (18), não saímos de casa. Meu esposo precisou ir ao supermercado, mas cada vez que chega já tomava banho, roupa da rua pra lavar, para não ter nenhum tipo de contaminação. As crianças inicialmente não entendiam, principalmente os pequenos, mas conseguimos dividir as tarefas para não sobrecarregar somente a mim. A Juliana brincava muito na rua, agora está vendo mais TV, desenhos animados, brinca com as barbies, gosta de ler gibis também. Ela quis aprender a cozinhar, ensinei ela e fizemos um bolo, dentre outras receitas. Se sentiu importante aprendendo os serviços domésticos, com a minha orientação. O Eduardo no início fez todas as tarefas escolares, ajudou muito na questão de brincar com os pequenos, inventamos diversas brincadeiras pela casa, como pega-pega, esconde-esconde, tudo no nosso quintal, sem sair do portão pra fora. Nossa casa já era bem agitada, e com a quarentena ficou ainda mais (risos), mas de crianças brincando, rindo, às vezes chorando porque também se estressam. Os pequenos pedem para ver os avós, e não podemos, mas fazemos chamadas de vídeo com eles, tios, padrinhos. Gostam de ouvir, falar, explicamos que não podemos sair porque lá fora tem um ‘bichinho’, e eles entendem que não pode. Buscamos ensinar a higienização das mãos, estamos todos sempre nos lavando, passando álcool. Estamos tendo uma convivência que a rotina corrida não permitia, estamos mais próximos, conseguimos sentar, conversar, cantar juntos, ler histórias. Pena que foi dessa forma triste, mas é um momento que precisava acontecer, esse estar em casa. Aprendemos que é possível ficar em casa, se cuidar e unidos, esses aprendizados vão ser levados adiante, mesmo quando essa situação acabar”.



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Famílias: Coronavírus afeta a rotina e força novos hábitos

Famílias reunidas em tempo integral abre novos caminhos para convivência

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Quinta, 26/3/2020 8:32.

A principal medida contra o Coronavírus é a permanência em casa, apenas comércios essenciais como mercados e farmácias seguem abertos. Com a suspensão das aulas presenciais e o trabalho sendo principalmente home office, as famílias estão em suas residências, mas passando por um momento inédito: não é férias, mas a rotina também não é a mesma de sempre. Quais são as principais mudanças? Como é para as crianças? O Página 3 conversou com pais que dividem um pouco de como vem sendo esse período, que ainda não tem data para acabar.

Mudou muito a sua vida? Então você precisa pensar que vida está (te) levando.

Caroline só está sentindo falta do ajuntamento da criançada do bairro.

Caroline Cezar, observa, escreve, cria, participa, observa de novo

“É comum os amigos perguntarem 'como está aí', em razão do momento que vivemos, e achei engraçado porque muitos comentaram, "ah, pra ti está tudo igual né".

Claro que sinto por esse trágico panorama mundial, e no nosso país ainda soma-se a esdrúxula questão política, com um "líder" que convida à divisão e não a união, mesmo nesse momento caótico.

Mas por aqui, realmente, as coisas estão calmas. Adoro estar em casa, e a solitude pra mim é uma necessidade básica, muito mais essencial que papel higiênico, que há anos praticamente não uso. Essa prática de ficar comigo mesma nem sempre é agradável (risos), mas um exercício constante para seguir caminhando. Eu gosto de andar descalça, acompanhar o ritmo natural do dia, das estações, luas e marés, gosto de estar perto do povo nativo, que ainda preserva algumas tradições e tem conhecimento da terra, da pesca artesanal, plantas e por aí vai. Cozinho minha comida todos os dias, e procuro ingredientes com mais vitalidade possível, muitos colhidos na hora. Minha vizinhança costuma dividir, quando tem banana, limão, abóbora, maracujá, abacate, ameixa, goiaba, é natural estender a alguém. Crio meus filhos, isso é bem natural pra mim, me pergunto quando a sociedade normatizou que as crianças sejam cuidadas por terceiros. Isso não significa se exaurir e inventar mil atividades, quando a rotina se estabelece de maneira natural, os ritmos são orgânicos, e todo mundo acaba tendo seu tempo. Por aqui temos senso de comunidade, por isso existem apoios, revezamentos e trocas, um cuidado mútuo entre adultos e crianças. Tempo de descanso, de movimento, de alimento e de pausa, de trabalho e lazer, tempo consigo mesmo e tempo com o outro.

Tenho muitos amigos que vivem uma vida mais orgânica e todos eles estão muito bem. Plantando, colhendo, brincadeiras livres com a criança, práticas de higiene mental e física (yoga, meditação, dança), banho de rio, água pura, alimento saudável, música, leituras, aprofundamentos, estudos.

O que mais mudou aqui na minha rotina é que os adolescentes estão só em casa, eles realmente sentem mais, por estar longe da turma e porque estão limitados com as saídas, e idas ao mercado, comprar chocolates e outros supérfluos (risos). Mas a gente sobrevive, e aproveita pra limpar por dentro também, estreitar os vínculos, conversar, e também se desentender pra chegar no entendimento, perceber que somos diferentes, cada um funciona de um jeito. É um exercício interessante, cultivar a individualidade estando junto.

Antes de pandemia, já enxergava todo esse caos fermentando, o homem achando que é imperador da Terra, isso é ignorante, porque é claro que ele não enxerga que faz parte desse organismo, senão não faria tão mal a si mesmo. Era bem fácil prever que estava próximo desse sistema colapsar, até aqui onde moro e consigo ter essa vida mais agreste essa é uma discussão constante. Eles chamam de nome bonito, "progresso", "desenvolvimento", "turismo sustentável", mas precisa pouca inteligência para entender que é exaurir a terra para ganhar dinheiro, explorar as riquezas que recebemos e deveríamos zelar, para vender "metros quadrados", encher o bolso de dinheiro (e de doença, e da escravidão de uma vida de consumo).

Desejo que todos usem esse tempo para aprofundar-se em si mesmo, observar a maneira que usufruem dessa vida, que lhes foi dada. Passar grande parte do dia na internet compartilhando negatividade (ou o outro extremo), não vai ajudar ninguém, só alimenta mais do mesmo. O que é realmente importante pra você? Isso contribui ou exaure o planeta? (olá, você está aqui). Pergunte aos seus avós como acontecia a vida. Observe os povos originários. Percebe a naturalidade da vida. Por que você está trancado nesse lugar? Se mudou muito a sua vida você realmente precisa avaliar que vida está (te) levando”.


“Tem sido prazeroso, mas sentem por não poderem brincar e interagir”

Brincadeiras distraem as meninas durante os dias;

Banho de mangueira animou a quarentena.

Francilene Laureano Moreira Krzisch, 41 anos, e Marcos Emerson Krzisch, 42 anos, são pais de Laura Giulia Moreira Kzisch, 7 anos, e Helena Giovanna Moreira Krzisch, 3 anos

“A nossa rotina é frenética, pois temos duas crianças: Laura Giulia (7 anos) e Helena Giovanna (3 anos) que estudam no período da tarde. Pelo menos em duas manhãs levamos mais cedo para a escola buscando conciliar as atividades extra curriculares delas com compromissos de trabalho que preciso assumir além da carga horária (atendimento a casos específicos, palestras, entrevistas e contatos com rede de atendimento, pois atuo como assistente social judiciária em Itajaí). Nas demais manhãs dedico-me aos cuidados delas (almoço, tarefas, consultas e demais demandas cotidianas) e meu esposo às leva para a escola. Como meu esposo trabalha muito além da carga horária comercial sou eu quem as busco na maioria dos dias na escola e como trabalho até às 19hs (Itajaí) minhas filhas são sempre uma das últimas crianças a serem buscadas. Quando preciso ministrar algum curso ou participar de reuniões à noite meu esposo fica com elas ou atribuímos os cuidados aos meus pais e eventualmente a minha sogra ou a minha vizinha e secretária do lar (todos idosos). Meu esposo tem uma rotina ainda mais agitada, pois além de atuar como advogado é muito ativo em vários movimentos sociais e na OAB (subseção e seccional), tendo que participar de várias reuniões além do horário de expediente. Está na fase de conclusão do mestrado e necessita dedicar-se à elaboração da dissertação, normalmente nos fins de semana. Desde quarta-feira (18/03) eu e as meninas estamos confinadas em nossa residencia. Liberei minha secretaria do lar para cumprir sua quarentena em casa, a fim de que não sejamos vetores do vírus e nem estejamos mais expostos ao contágio pela interação. Desde então, não recebemos a visita de ninguém em casa e o contato com vizinhos se restringe a metros de distância. Moramos em um condomínio horizontal (de casas) e eventualmente as crianças brincam no condomínio com certa naturalidade. Contudo, proibimos veemente as nossas de interagir. Por alguns momentos as libero para tomar um ar livre, andar de patinete, desde que não tenham a possibilidade de interação com outras crianças, a fim de minimizar as possibilidades de contágio. Meu esposo continua indo ao escritório em horário de expediente, mas sem atendimento ao público. Aproveita o momento para atividades do trabalho, mas principalmente para a escrita da dissertação e tem priorizado os fins de semana e às noites para estarmos todos juntos em casa, a fim de minimizar o impacto da quarentena para mim e para as crianças. Como estou atuando em home office busco driblar as tarefas da casa, cuidado das filhas e as atribuições de trabalho, em horários que elas estão dormindo ou entretidas em outras atividades. Para as crianças, até o momento, tem sido prazeroso, mas sentem pelo fato de não poderem brincar no condomínio e interagir com os amiguinhos, contudo explicamos com muito afeto e firmeza e elas tem compreendido, superando nossas expectativas. Temos buscado dedicar nossa atenção as necessidades delas, buscando várias atividades lúdicas (teatro, teatros de fantoches, pinturas, leituras, artes em geral), brincadeiras (banho de mangueira, dança, música, stop), atividades culinárias e de tarefas domésticas (organização de brinquedo, estender roupas no varal), tarefas escolares, principalmente com a maior (2º ano), buscado aproveitar esses momento para estabelecer mais proximidade e atenção. buscado contornar os momentos de tédio e saudade da escola e amigos com muito afeto e disponibilidade em tirá-las do foco do confinamento, aproveitando para dar muito colo e afeto. Sendo resilientes compreendemos que esse momento tem muito a nos ensinar como pais e seres humanos, pois essa necessidade de parar nos coloca a reflexão de que vivemos uma vida muito tumultuada em que as prioridades estão invertidas, de que não há tempo para coisas realmente essenciais e significantes. De que temos muito mais o que agradecer do que almejar. De que muitos necessitam de condições mínimas para uma vida digna, pois tantos nem podem estar em suas casas porque simplesmente não tem um teto. De que precisamos pensar mais no coletivo para termos uma sociedade mais justa e digna: saneamento básico, habitação, saúde de qualidade. Que a impossibilidade de um contato físico com familiar e amigo nos mostra o valor das nossas relações. De que somos muito mais vulneráveis e impotentes do que imaginávamos. De que Deus é quem nos sustenta e cada vez mais temos a necessidade de buscá-lo para acreditar no amanhã”.


“Estamos tendo uma convivência que a rotina corrida não permitia”

Daiana e os filhos, Juju, Miguel e Gabriel brincam no quintal de casa;

Juliana aprendeu a fazer bolo na quarentena

Daiana Franciele Lamin, 34 anos, monitora de transporte escolar é mãe de Eduardo, 14 anos, Juliana, 8 anos, e dos gêmeos Gabriel e Miguel, 3 anos

“Nossa rotina costuma ser bem agitada, todos acordamos cedo, às 6h. Eu e meu esposo, Juliano, temos quatro filhos, o Dudu, a Juliana, e os pequenos, Gabriel e Miguel. Os maiores iam pra escola e os gêmeos pra creche, eu e o Juliano também trabalhamos fora. Eu chegava bem agitada, cansada, as crianças também, mas tinham pique de brincar, de se exercitarem, correr, gritar... nossa vida é agitada, até umas 20h, 22h. Com a quarentena está sendo algo bem diferente, todos trancados em casa juntos e sem poder sair. As crianças brincavam na rua o dia inteiro, aos fins de semana, e quando chegavam da escola também, a partir dos decretos os portões foram trancados, as crianças se isolaram, a rua está um silêncio. No início ficamos perdidos, não sabíamos como agir, e aos poucos os dias foram passando, fomos entrando em um período de conversa, olhando os noticiários, vendo o que estava acontecendo e isso foi nos confortando sabendo que estamos em casa e seguros. Desde quarta-feira (18), não saímos de casa. Meu esposo precisou ir ao supermercado, mas cada vez que chega já tomava banho, roupa da rua pra lavar, para não ter nenhum tipo de contaminação. As crianças inicialmente não entendiam, principalmente os pequenos, mas conseguimos dividir as tarefas para não sobrecarregar somente a mim. A Juliana brincava muito na rua, agora está vendo mais TV, desenhos animados, brinca com as barbies, gosta de ler gibis também. Ela quis aprender a cozinhar, ensinei ela e fizemos um bolo, dentre outras receitas. Se sentiu importante aprendendo os serviços domésticos, com a minha orientação. O Eduardo no início fez todas as tarefas escolares, ajudou muito na questão de brincar com os pequenos, inventamos diversas brincadeiras pela casa, como pega-pega, esconde-esconde, tudo no nosso quintal, sem sair do portão pra fora. Nossa casa já era bem agitada, e com a quarentena ficou ainda mais (risos), mas de crianças brincando, rindo, às vezes chorando porque também se estressam. Os pequenos pedem para ver os avós, e não podemos, mas fazemos chamadas de vídeo com eles, tios, padrinhos. Gostam de ouvir, falar, explicamos que não podemos sair porque lá fora tem um ‘bichinho’, e eles entendem que não pode. Buscamos ensinar a higienização das mãos, estamos todos sempre nos lavando, passando álcool. Estamos tendo uma convivência que a rotina corrida não permitia, estamos mais próximos, conseguimos sentar, conversar, cantar juntos, ler histórias. Pena que foi dessa forma triste, mas é um momento que precisava acontecer, esse estar em casa. Aprendemos que é possível ficar em casa, se cuidar e unidos, esses aprendizados vão ser levados adiante, mesmo quando essa situação acabar”.



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