Jornal Página 3
Coluna
América Misteriosa
Por Dalton Delfini Maziero

PUCARÁ DE TILCARA

Para quem conhece a região do deserto do Atacama, sabe que ela se caracteriza por uma beleza natural bastante selvagem. O solo árido de altitude, o ar rarefeito, o horizonte infinito; a água perene, límpida e gelada, proveniente do degelo das montanhas. A luminosidade de uma coloração e nitidez que não consigo explicar em palavras. E no meio de tudo isso, a Cordilheira dos Andes!

Essa paisagem bela e austera não encontra limites nas fronteiras humanas. Ela expande além do Chile, em direção à Bolívia e Argentina. E é justamente nesse último país que encontramos o original sítio arqueológico de Pucará de Tilcara.

No mundo pré-colombiano, todo assentamento humano era realizado tendo em vista sua defesa, possibilidade de plantio e coleta d’água. O termo “Tilcara” designa um grupo específico, que fez parte de um grupo maior de características semelhantes, conhecido como Omaguacas (também chamados Humahuacas). Já “Pucará” - à grosso modo - significa “fortaleza”, um lugar onde a defesa é vantajosa.

Pucará de Tilcara está a 2.450 metros de altitude, avançando sobre um morro, distribuindo suas construções em leves plataformas. Está em um ponto geográfico próximo aos rios Grande e Huasamayo. Arqueólogos identificaram ali mais de 3 mil objetos que datam de aproximadamente 1160 dC, além de vários bairros demarcados, currais, um cemitério e um espaço cerimonial.

As principais escavações ocorreram entre 1908 e 1911. O etnógrafo Juan Bautista Ambrosetti (Diretor do Museu Etnográfico da Universidade de Buenos Aires) e seu discípulo Salvador Debenedetti, conseguiram reconstruir boa parte da vida rotineira daquele povo, antes da chegada dos espanhóis. Em 1929, Debenedetti ampliou as escavações juntamente com o arqueólogo Eduardo Casanova. Contudo, a reconstrução como a vemos hoje, é fruto de projeto de Casanova, que em 1948, criou também um museu arqueológico de sítio.

O povo Tilcara, ao que parece, vivia uma rotina pautada pelo plantio (batata, milho, quinoa) sem arado e com ferramentas simples; caça (vizcacha, vicuña, guanaco) e criação de animais como a lhama, de onde obtinham lã e carne. Mas também desenvolveram belos exemplares de cerâmica. Os Tilcaras sofreram a invasão Inca, mas mantiveram seus costumes. Somente com a chegada efetiva dos espanhóis em 1594 à região, é que foram submetidos, após uma longa resistência. Com a aplicação do Regime de Encomienda, foram separados e enviados a trabalhar em outras regiões, caindo o povoado em abandono.

Tilcará é considerada uma das povoações autônomas mais antigas da Argentina! Hoje é reconhecida não como uma cidade, mas como Monumento Histórico Nacional.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 20/05/2019 às 11h09 | daltonmaziero@uol.com.br

O MITO DA PEDRA DA GÁVEA

Existiu uma época no Brasil, em que teorias de colonização apontavam a presença de povos como os fenícios e vikings. Se hoje tais teorias são motivo de descrença – e até risos -, no século XIX e meados do XX eram levadas muito a sério, contribuindo para nosso imaginário popular. Os principais defensores de tais ideias foram Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, Ludwig Schwennhagen e Paul Herrmann que escreveram nossa história, associando vestígios arqueológicos e línguas nativas às antigas civilizações indo-europeias.

A tentativa de negar a presença ameríndia - e tudo o que realizaram em nosso continente -, faz parte da teoria Difusionista, amplamente utilizada pelos cientistas e viajantes europeus nos séculos XVIII e XIX. Nela, vestígios arqueológicos do Novo Mundo eram associados às antigas civilizações conhecidas (egípcia, fenícia, romana, grega, viking) ou, quando muito distintas, à civilizações imaginárias, como a Atlântida, Lemúria ou o Reino de Salomão.

Aqui no Brasil, tudo começou no século XIX, quando em 1839 o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil realizou oficialmente pesquisas relacionadas às supostas antigas inscrições encontradas em nosso território. Após um relatório positivista sobre as “inscrições” na Pedra da Gávea (Rio de Janeiro), o assunto foi retomado oficialmente apenas em 1931 e 1933, quando um grupo de alpinistas partiu com o objetivo de localizar o túmulo de um rei fenício coroado em 856 aC.

Dentro desse contexto, a Pedra da Gávea angariou por várias décadas, muitos adeptos defensores da presença fenícia no Brasil. Localizada na Cordilheira da Tijuca, ela possui cerca de 840 metros de altura, com formação geológica em granito e gnaisse. Toda a crença da presença de povos antigos no Brasil parte da mera observação de ranhuras na rocha, que muitos imaginaram ser escritas antigas, indicadoras de um túmulo real e/ou tesouro escondido no Rio de Janeiro. Colaborava para isso – no imaginário popular – um suposto “rosto” em uma das faces da montanha. Muitos queriam ver nesse rosto, a Esfinge de Gizé.

Diversas expedições foram realizadas no local em 1937, 1946 e 1972, sem nenhum resultado concreto. Na década de 1950, devido aos constantes comentários, o Ministério da Educação do Brasil alegou “que o exame feito por geólogos havia provado ser nada mais que o efeito da erosão o que parecia ser uma inscrição”. Contudo, o lançamento de filmes populares como “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” (1970) – no qual buscam um tesouro fenício no Rio de Janeiro, alimentaram o imaginário por mais algum tempo.

Fato é, contudo, que a Pedra da Gávea não oferece nenhum interesse arqueológico ou prova relacionada aos antigos povos europeus. Hoje, as supostas “escritas fenícias” são tratadas como simples erosão, e o “rosto” como paredolia, um fenômeno psicológico que nos faz ver figuras onde não existem.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/04/2019 às 10h29 | daltonmaziero@uol.com.br

A PIRÂMIDE REDONDA DE CUICUILCO

 

Existe na cidade do México e arredores, uma infinidade de atrações arqueológicas. Basta abrir um guia de viagem para ver ali relacionado o Templo Mayor Asteca (Mexica), os Atlantes de Tula, o Museu Nacional de Antropologia ou as ruínas da famosa cidade de Teotihuacán, com sua gigantesca Pirâmide do Sol. Contudo, poucos conhecem ou ouviram falar de Cuicuilco e sua pirâmide redonda, um dos únicos exemplares conhecidos neste estilo.

Cuicuilco é provavelmente a mais antiga zona arqueológica dentro do Vale do México. Mais antiga ainda que Teotihuacán! Sua construção data de 800 aC a 250 dC.; sendo, portanto, contemporânea do povo Olmeca, um dos mais antigos e influenciadores na Mesoamérica. Por este motivo, em Cuicuilco encontramos traços primevos de arquitetura, do entendimento cosmológico e das observações climáticas que dariam posteriormente os dados para a criação de um calendário solar. Também em Cuicuilco foram encontradas as referências mais antigas ao Deus do Fogo, relacionado a um vulcão que mais tarde os destruiria.

Ainda hoje podemos ver os vestígios de uma cidade que abrigou 40 mil pessoas, contendo ruas, templos, praças, terraços e dezenas de pirâmides, entre as quais a enorme pirâmide redonda, conhecida oficialmente como “El Gran Basamento”, cuja construção data de 600-400 aC. Ela é uma das primeiras grandes estruturas de pedra conhecida em toda Mesoamérica – com 110 metros de diâmetro – e o primeiro edifício criado para funcionar como um calendário. De seu topo, ainda hoje é possível observar o equinócio – quando o movimento solar torna iguais dias e noites – detrás do vulcão El Papayo. A pirâmide de forma elíptica tornou-se uma arquitetura precursora, usando de patamares e com utilização de altares em sua parte superior e antecâmara na parte inferior, ornada com pinturas.

A antiga Cuicuilco ocupava cerca de 400 hectares, de modo que podemos ver restos desta cidade espalhados em parques e ruas distantes cerca de 1,5 km de distância de sua maior pirâmide. Segundo a arqueóloga Zelia María Magdalena Nuttall (1857-1933), o termo “Cuicuilco” pode significar “lugar onde se dança e canta”, talvez uma menção ao seu caráter e uso sagrado. Seja como for, tudo leva a crer que sua sociedade foi bastante avançada – como revelam os sofisticados canais de água – e hierarquizada, contendo camponeses, artesãos, guerreiros, médicos, sacerdotes e governantes.

Contudo, boa parte das ruinas de Cuicuilco continuam debaixo de uma capa de lava seca que chega a atingir 10 metros de espessura. Tudo porque, em 250 dC, o Vulcão Xitlé explodiu, engolindo a cidade e dispersando sua população, que migrou para Toluca e para a nova grande cidade de Teotihuacán, que se tornaria em breve a maior metrópole mesoamericana.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/04/2019 às 21h37 | daltonmaziero@uol.com.br

HUACA PUCLLANA – OS ADORADORES DO MAR

A cidade de Lima está situada na costa desértica do Peru, banhada pelo Oceano Pacífico. O viajante que chega de avião costuma ficar impressionado com a monocromia da paisagem e a secura da terra. É difícil imaginar que ali, viveram grandes civilizações. Contudo, Lima guarda alguns dos maiores tesouros arqueológicos de nosso continente. Um deles – Huaca Pucllana – na forma de uma enorme pirâmide de adobe encravada hoje em meio à cidade moderna. Para os viajantes, é bastante estranho ver tamanha construção de tijolos de adobe em contraste aos edifícios modernos. O nome verdadeiro deste templo do antigo povo Lima, perdeu-se no tempo. O termo “pucllana” é de origem quéchua e foi criado no século XVI.

O povo Lima viveu na região litorânea do Peru entre 200 e 700 dC. Ocupou todos os vales próximos à atual capital, dedicando-se economicamente à pesca, coleta de produtos naturais, plantio de legumes e frutas, assim como artigos manufaturados, como cerâmica e tecidos. A cerâmica foi uma de suas atividades mais importantes, pois eram utilizadas tanto nos afazeres cotidianos como em suas cerimônias religiosas. É notável de observar seus desenhos estilizados, geralmente feitos em apenas três cores: branco, negro e vermelho. Uma de suas criações mais famosas é o de um tubarão com duas cabeças, que parece representar a força oriunda dos oceanos.

A Huaca Pucllana era parte fundamental na religião e administração do povo Lima. Possui mais de 25 metros de altura e ocupa cerca de 6 hectares. Ela ergueu-se sobre sete plataformas escalonadas, local onde foram enfileirados milhares de tijolos de barro feitos à mão. Ali criaram recintos administrativos, praças, depósitos, salas de reuniões e espaços para atividades sagradas, que incluía banquetes com carne de tubarão, rompimento de vasilhas de cerâmica sagrada (com imagens marinhas), oferendas de peixes e animais marinhos, e eventuais sacrifícios humanos com crianças e mulheres. Uma das principais funções de Huaca Pucllana era servir a uma casta de sacerdotes que buscavam controlar os recursos hídricos naturais, dos rios e oceano.

Assim como outras construções regionais, Pucllana foi abandonada por volta de 750 dC. Arqueólogos notaram um declínio nas oferendas e mesmo na arquitetura local. Recintos elaborados foram substituídos por pequenas edificações de material reciclado e tosco. Pouco depois, a presença do povo Wari submete o que restou dos Lima, transformando a antiga Pucllana em necrópole entre 800 e 1000 dC. Uma vez utilizada como cemitério, a enorme pirâmide passa a ser venerada, transformando-se em “Nawpallacta” (estrutura ou povoado antigo de caráter sagrado). E assim permaneceu ao longo do domínio Inca até a chegada dos espanhóis. Hoje, a pirâmide é uma das principais atrações arqueológicas da capital peruana.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 21/03/2019 às 13h41 | daltonmaziero@uol.com.br

OS ATLANTES DE TULA

Tula - chamada Tollan-Xicocotitlan - fica a 70 km da Cidade do México, em plena região semidesértica. Nenhum viajante se daria ao trabalho de ir até lá, se não fossem as espetaculares ruínas da antiga capital do povo Tolteca (700-1179 dC), às quais pertencem os impressionantes Atlantes de Tula. A capital tolteca ocupou uma área de 16 km², com aproximadamente 30 mil habitantes. Foi uma das maiores cidades pré-colombianas do antigo México.

A primeira referência que temos dessas ruínas data do século XVI. São mencionadas pelo Frei Bernardino de Sahagún, como “Morro dos Tesouros”. Em 1873, o acadêmico Antonio G. Cubas arriscava descreveu a antiga Tula para a Sociedade Mexicana de História e Geografia. Em 1885, Désiré Charnay - um antiquário francês - fez escavações na intenção de obter tesouros perdidos para venda à colecionadores. Somente em 1940, o arqueólogo Jorge Ruffier Acosta executa um projeto sério de escavações que durou mais de 20 anos, sob apoio do INAH (Instituto Nacional de Antropologia e História). Outras só ocorreriam na década de 1970, com a reconstrução de vários edifícios.

Nesse contexto, surgem os Atlantes de Tula, quatro gigantescas estátuas antropomorfas esculpidas em basalto e forma de coluna - medindo mais de 4,6 metros cada - que hoje ocupam o topo da Pirâmide B, também conhecida como Templo de Tlahuizcalpantecutli. Suas imagens representam o deus Quetzalcóatl, vestindo roupas de guerra, com proteção peitoral, punhais, dardos e átlatl (lançador de dardos). Acredita-se que os monumentos seguravam o teto de um espaço sagrado, construído no topo da pirâmide. Quando o arqueólogo Jorge R. Acosta os descobriu em 1940, estavam tombadas e partidas.
A impressionante beleza estética das figuras, resgata diversos elementos pertencentes aos guerreiros toltecas, como o uso de sandálias, disco de proteção preso às costas, tocado com proteção para orelhas e braceletes. Quanto ao peitoral em formato de mariposa, ele representa o deus Xiuhtecuhtli (Senhor Precioso) uma das divindades dos povos nômades do Norte, relacionado ao fogo. Também existe associação com Huehueteotl (Senhor Velho), representado por um braseiro em chamas.

A antiga capital tolteca foi uma grande sociedade multiétnica e socialmente estratificada. Ali viviam diversos povos originários das mais distantes regiões, como os teotihuacanos, chichimecas e mexicas. A descoberta dos Atlantes nos mostra como a guerra era importante para esses povos, pois no mesmo local foram encontrados relevos de jaguares e águias devorando corações, e de serpentes engolindo guerreiros inimigos. Acredita-se hoje, que a guerra para os toltecas exerceu um papel transcendental, e que exercê-la era um ato religioso.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/03/2019 às 10h20 | daltonmaziero@uol.com.br

CENTÉOTL – A DEUSA DO MILHO

Algumas civilizações da história, como a egípcia, hindu ou mesopotâmica, possuíram uma gama enorme de deuses, cada qual destinado a um fenômeno natural, sentimento, objeto ou ação. Da mesma forma, a antiga América também apresentou seu panteão de divindades com centenas de representantes para todas as classes e categorias imagináveis. Um dos mais importantes deuses americanos – chamado Centéotl – foi dedicado ao milho.

Na mitologia dos Mexicas (México), Centéotl era o deus do milho e patrono dos embriagados. Isso porque com o milho fermentado, se tirava uma bebida alcoólica espiritual, usada em rituais. Também devia sua importância ao fato de o milho ser uma das principais fontes de alimento na Mesoamérica. Um dado interessante desta entidade era sua dualidade sexual. Ele foi representado como homem (Centéotl) ou como mulher (Chicomecóatl).

Sua celebração ocorria no quarto mês mexica (Huey Tozoztli) e era associada ao milho seco, que serviria de semente para gerar na terra, novos milhos. Devido ao seu caráter germinador, a imagem desse deus remetia à fertilidade, agricultura, colheita, natureza, beleza e sexualidade. Embora existam várias versões de sua lenda, uma das mais correntes fala da entidade como filho de Piltzinteuctli e Xochiquétzal, que o geraram na terra, lugar onde Centéotl se escondia. Uma vez debaixo da terra, passa a germinar outras plantas com suas características. Dessa forma, seus cabelos – fios loiros da espiga – geraram o algodão; assim como seus dedos geraram os camotes (batata doce). Por essa contribuição, o deus do milho é chamado comumente de “Deus Amado”.

Existiam vários cultos dedicados a Centéotl. Em um deles, os grãos secos do milho eram agrupados em sete unidades, e levados ao templo de Chicomecóatl. Aqueles grãos “abençoados” seriam então armazenados e posteriormente utilizados nos plantios. Existia também um ritual mais pessoal, onde cada agricultor recolhia os melhores grãos de seu próprio cultivo, secando-os. Esses grãos eram oferecidos à deusa em suas casas e depois utilizados como sementes em novo plantio.

O estudo representativo desse deus mesoamericano não é fácil, pois é possível que essa entidade dual represente também uma série de outras entidades partilhadas, ou seja, que Centéotl seja um conjunto de deusas. Algumas delas serial: Tlatlauhquicenteotl (deusa do milho vermelho); Iztaccenteotl (deusa do milho branco); Xilonen (fase de crescimento da espiga), entre outros. Da mesma forma, o deus foi ritualizado por outros grupos, como os totonacas, que para ele construíram cinco templos – inclusive no topo de montanhas – dedicando-lhe sacerdotes próprios e sacrifícios de animais, como coelhos e codornas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/02/2019 às 09h52 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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Por Dalton Delfini Maziero

PUCARÁ DE TILCARA

Para quem conhece a região do deserto do Atacama, sabe que ela se caracteriza por uma beleza natural bastante selvagem. O solo árido de altitude, o ar rarefeito, o horizonte infinito; a água perene, límpida e gelada, proveniente do degelo das montanhas. A luminosidade de uma coloração e nitidez que não consigo explicar em palavras. E no meio de tudo isso, a Cordilheira dos Andes!

Essa paisagem bela e austera não encontra limites nas fronteiras humanas. Ela expande além do Chile, em direção à Bolívia e Argentina. E é justamente nesse último país que encontramos o original sítio arqueológico de Pucará de Tilcara.

No mundo pré-colombiano, todo assentamento humano era realizado tendo em vista sua defesa, possibilidade de plantio e coleta d’água. O termo “Tilcara” designa um grupo específico, que fez parte de um grupo maior de características semelhantes, conhecido como Omaguacas (também chamados Humahuacas). Já “Pucará” - à grosso modo - significa “fortaleza”, um lugar onde a defesa é vantajosa.

Pucará de Tilcara está a 2.450 metros de altitude, avançando sobre um morro, distribuindo suas construções em leves plataformas. Está em um ponto geográfico próximo aos rios Grande e Huasamayo. Arqueólogos identificaram ali mais de 3 mil objetos que datam de aproximadamente 1160 dC, além de vários bairros demarcados, currais, um cemitério e um espaço cerimonial.

As principais escavações ocorreram entre 1908 e 1911. O etnógrafo Juan Bautista Ambrosetti (Diretor do Museu Etnográfico da Universidade de Buenos Aires) e seu discípulo Salvador Debenedetti, conseguiram reconstruir boa parte da vida rotineira daquele povo, antes da chegada dos espanhóis. Em 1929, Debenedetti ampliou as escavações juntamente com o arqueólogo Eduardo Casanova. Contudo, a reconstrução como a vemos hoje, é fruto de projeto de Casanova, que em 1948, criou também um museu arqueológico de sítio.

O povo Tilcara, ao que parece, vivia uma rotina pautada pelo plantio (batata, milho, quinoa) sem arado e com ferramentas simples; caça (vizcacha, vicuña, guanaco) e criação de animais como a lhama, de onde obtinham lã e carne. Mas também desenvolveram belos exemplares de cerâmica. Os Tilcaras sofreram a invasão Inca, mas mantiveram seus costumes. Somente com a chegada efetiva dos espanhóis em 1594 à região, é que foram submetidos, após uma longa resistência. Com a aplicação do Regime de Encomienda, foram separados e enviados a trabalhar em outras regiões, caindo o povoado em abandono.

Tilcará é considerada uma das povoações autônomas mais antigas da Argentina! Hoje é reconhecida não como uma cidade, mas como Monumento Histórico Nacional.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 20/05/2019 às 11h09 | daltonmaziero@uol.com.br

O MITO DA PEDRA DA GÁVEA

Existiu uma época no Brasil, em que teorias de colonização apontavam a presença de povos como os fenícios e vikings. Se hoje tais teorias são motivo de descrença – e até risos -, no século XIX e meados do XX eram levadas muito a sério, contribuindo para nosso imaginário popular. Os principais defensores de tais ideias foram Bernardo de Azevedo da Silva Ramos, Ludwig Schwennhagen e Paul Herrmann que escreveram nossa história, associando vestígios arqueológicos e línguas nativas às antigas civilizações indo-europeias.

A tentativa de negar a presença ameríndia - e tudo o que realizaram em nosso continente -, faz parte da teoria Difusionista, amplamente utilizada pelos cientistas e viajantes europeus nos séculos XVIII e XIX. Nela, vestígios arqueológicos do Novo Mundo eram associados às antigas civilizações conhecidas (egípcia, fenícia, romana, grega, viking) ou, quando muito distintas, à civilizações imaginárias, como a Atlântida, Lemúria ou o Reino de Salomão.

Aqui no Brasil, tudo começou no século XIX, quando em 1839 o Instituto Histórico e Geográfico do Brasil realizou oficialmente pesquisas relacionadas às supostas antigas inscrições encontradas em nosso território. Após um relatório positivista sobre as “inscrições” na Pedra da Gávea (Rio de Janeiro), o assunto foi retomado oficialmente apenas em 1931 e 1933, quando um grupo de alpinistas partiu com o objetivo de localizar o túmulo de um rei fenício coroado em 856 aC.

Dentro desse contexto, a Pedra da Gávea angariou por várias décadas, muitos adeptos defensores da presença fenícia no Brasil. Localizada na Cordilheira da Tijuca, ela possui cerca de 840 metros de altura, com formação geológica em granito e gnaisse. Toda a crença da presença de povos antigos no Brasil parte da mera observação de ranhuras na rocha, que muitos imaginaram ser escritas antigas, indicadoras de um túmulo real e/ou tesouro escondido no Rio de Janeiro. Colaborava para isso – no imaginário popular – um suposto “rosto” em uma das faces da montanha. Muitos queriam ver nesse rosto, a Esfinge de Gizé.

Diversas expedições foram realizadas no local em 1937, 1946 e 1972, sem nenhum resultado concreto. Na década de 1950, devido aos constantes comentários, o Ministério da Educação do Brasil alegou “que o exame feito por geólogos havia provado ser nada mais que o efeito da erosão o que parecia ser uma inscrição”. Contudo, o lançamento de filmes populares como “Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa” (1970) – no qual buscam um tesouro fenício no Rio de Janeiro, alimentaram o imaginário por mais algum tempo.

Fato é, contudo, que a Pedra da Gávea não oferece nenhum interesse arqueológico ou prova relacionada aos antigos povos europeus. Hoje, as supostas “escritas fenícias” são tratadas como simples erosão, e o “rosto” como paredolia, um fenômeno psicológico que nos faz ver figuras onde não existem.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 29/04/2019 às 10h29 | daltonmaziero@uol.com.br

A PIRÂMIDE REDONDA DE CUICUILCO

 

Existe na cidade do México e arredores, uma infinidade de atrações arqueológicas. Basta abrir um guia de viagem para ver ali relacionado o Templo Mayor Asteca (Mexica), os Atlantes de Tula, o Museu Nacional de Antropologia ou as ruínas da famosa cidade de Teotihuacán, com sua gigantesca Pirâmide do Sol. Contudo, poucos conhecem ou ouviram falar de Cuicuilco e sua pirâmide redonda, um dos únicos exemplares conhecidos neste estilo.

Cuicuilco é provavelmente a mais antiga zona arqueológica dentro do Vale do México. Mais antiga ainda que Teotihuacán! Sua construção data de 800 aC a 250 dC.; sendo, portanto, contemporânea do povo Olmeca, um dos mais antigos e influenciadores na Mesoamérica. Por este motivo, em Cuicuilco encontramos traços primevos de arquitetura, do entendimento cosmológico e das observações climáticas que dariam posteriormente os dados para a criação de um calendário solar. Também em Cuicuilco foram encontradas as referências mais antigas ao Deus do Fogo, relacionado a um vulcão que mais tarde os destruiria.

Ainda hoje podemos ver os vestígios de uma cidade que abrigou 40 mil pessoas, contendo ruas, templos, praças, terraços e dezenas de pirâmides, entre as quais a enorme pirâmide redonda, conhecida oficialmente como “El Gran Basamento”, cuja construção data de 600-400 aC. Ela é uma das primeiras grandes estruturas de pedra conhecida em toda Mesoamérica – com 110 metros de diâmetro – e o primeiro edifício criado para funcionar como um calendário. De seu topo, ainda hoje é possível observar o equinócio – quando o movimento solar torna iguais dias e noites – detrás do vulcão El Papayo. A pirâmide de forma elíptica tornou-se uma arquitetura precursora, usando de patamares e com utilização de altares em sua parte superior e antecâmara na parte inferior, ornada com pinturas.

A antiga Cuicuilco ocupava cerca de 400 hectares, de modo que podemos ver restos desta cidade espalhados em parques e ruas distantes cerca de 1,5 km de distância de sua maior pirâmide. Segundo a arqueóloga Zelia María Magdalena Nuttall (1857-1933), o termo “Cuicuilco” pode significar “lugar onde se dança e canta”, talvez uma menção ao seu caráter e uso sagrado. Seja como for, tudo leva a crer que sua sociedade foi bastante avançada – como revelam os sofisticados canais de água – e hierarquizada, contendo camponeses, artesãos, guerreiros, médicos, sacerdotes e governantes.

Contudo, boa parte das ruinas de Cuicuilco continuam debaixo de uma capa de lava seca que chega a atingir 10 metros de espessura. Tudo porque, em 250 dC, o Vulcão Xitlé explodiu, engolindo a cidade e dispersando sua população, que migrou para Toluca e para a nova grande cidade de Teotihuacán, que se tornaria em breve a maior metrópole mesoamericana.


Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 12/04/2019 às 21h37 | daltonmaziero@uol.com.br

HUACA PUCLLANA – OS ADORADORES DO MAR

A cidade de Lima está situada na costa desértica do Peru, banhada pelo Oceano Pacífico. O viajante que chega de avião costuma ficar impressionado com a monocromia da paisagem e a secura da terra. É difícil imaginar que ali, viveram grandes civilizações. Contudo, Lima guarda alguns dos maiores tesouros arqueológicos de nosso continente. Um deles – Huaca Pucllana – na forma de uma enorme pirâmide de adobe encravada hoje em meio à cidade moderna. Para os viajantes, é bastante estranho ver tamanha construção de tijolos de adobe em contraste aos edifícios modernos. O nome verdadeiro deste templo do antigo povo Lima, perdeu-se no tempo. O termo “pucllana” é de origem quéchua e foi criado no século XVI.

O povo Lima viveu na região litorânea do Peru entre 200 e 700 dC. Ocupou todos os vales próximos à atual capital, dedicando-se economicamente à pesca, coleta de produtos naturais, plantio de legumes e frutas, assim como artigos manufaturados, como cerâmica e tecidos. A cerâmica foi uma de suas atividades mais importantes, pois eram utilizadas tanto nos afazeres cotidianos como em suas cerimônias religiosas. É notável de observar seus desenhos estilizados, geralmente feitos em apenas três cores: branco, negro e vermelho. Uma de suas criações mais famosas é o de um tubarão com duas cabeças, que parece representar a força oriunda dos oceanos.

A Huaca Pucllana era parte fundamental na religião e administração do povo Lima. Possui mais de 25 metros de altura e ocupa cerca de 6 hectares. Ela ergueu-se sobre sete plataformas escalonadas, local onde foram enfileirados milhares de tijolos de barro feitos à mão. Ali criaram recintos administrativos, praças, depósitos, salas de reuniões e espaços para atividades sagradas, que incluía banquetes com carne de tubarão, rompimento de vasilhas de cerâmica sagrada (com imagens marinhas), oferendas de peixes e animais marinhos, e eventuais sacrifícios humanos com crianças e mulheres. Uma das principais funções de Huaca Pucllana era servir a uma casta de sacerdotes que buscavam controlar os recursos hídricos naturais, dos rios e oceano.

Assim como outras construções regionais, Pucllana foi abandonada por volta de 750 dC. Arqueólogos notaram um declínio nas oferendas e mesmo na arquitetura local. Recintos elaborados foram substituídos por pequenas edificações de material reciclado e tosco. Pouco depois, a presença do povo Wari submete o que restou dos Lima, transformando a antiga Pucllana em necrópole entre 800 e 1000 dC. Uma vez utilizada como cemitério, a enorme pirâmide passa a ser venerada, transformando-se em “Nawpallacta” (estrutura ou povoado antigo de caráter sagrado). E assim permaneceu ao longo do domínio Inca até a chegada dos espanhóis. Hoje, a pirâmide é uma das principais atrações arqueológicas da capital peruana.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 21/03/2019 às 13h41 | daltonmaziero@uol.com.br

OS ATLANTES DE TULA

Tula - chamada Tollan-Xicocotitlan - fica a 70 km da Cidade do México, em plena região semidesértica. Nenhum viajante se daria ao trabalho de ir até lá, se não fossem as espetaculares ruínas da antiga capital do povo Tolteca (700-1179 dC), às quais pertencem os impressionantes Atlantes de Tula. A capital tolteca ocupou uma área de 16 km², com aproximadamente 30 mil habitantes. Foi uma das maiores cidades pré-colombianas do antigo México.

A primeira referência que temos dessas ruínas data do século XVI. São mencionadas pelo Frei Bernardino de Sahagún, como “Morro dos Tesouros”. Em 1873, o acadêmico Antonio G. Cubas arriscava descreveu a antiga Tula para a Sociedade Mexicana de História e Geografia. Em 1885, Désiré Charnay - um antiquário francês - fez escavações na intenção de obter tesouros perdidos para venda à colecionadores. Somente em 1940, o arqueólogo Jorge Ruffier Acosta executa um projeto sério de escavações que durou mais de 20 anos, sob apoio do INAH (Instituto Nacional de Antropologia e História). Outras só ocorreriam na década de 1970, com a reconstrução de vários edifícios.

Nesse contexto, surgem os Atlantes de Tula, quatro gigantescas estátuas antropomorfas esculpidas em basalto e forma de coluna - medindo mais de 4,6 metros cada - que hoje ocupam o topo da Pirâmide B, também conhecida como Templo de Tlahuizcalpantecutli. Suas imagens representam o deus Quetzalcóatl, vestindo roupas de guerra, com proteção peitoral, punhais, dardos e átlatl (lançador de dardos). Acredita-se que os monumentos seguravam o teto de um espaço sagrado, construído no topo da pirâmide. Quando o arqueólogo Jorge R. Acosta os descobriu em 1940, estavam tombadas e partidas.
A impressionante beleza estética das figuras, resgata diversos elementos pertencentes aos guerreiros toltecas, como o uso de sandálias, disco de proteção preso às costas, tocado com proteção para orelhas e braceletes. Quanto ao peitoral em formato de mariposa, ele representa o deus Xiuhtecuhtli (Senhor Precioso) uma das divindades dos povos nômades do Norte, relacionado ao fogo. Também existe associação com Huehueteotl (Senhor Velho), representado por um braseiro em chamas.

A antiga capital tolteca foi uma grande sociedade multiétnica e socialmente estratificada. Ali viviam diversos povos originários das mais distantes regiões, como os teotihuacanos, chichimecas e mexicas. A descoberta dos Atlantes nos mostra como a guerra era importante para esses povos, pois no mesmo local foram encontrados relevos de jaguares e águias devorando corações, e de serpentes engolindo guerreiros inimigos. Acredita-se hoje, que a guerra para os toltecas exerceu um papel transcendental, e que exercê-la era um ato religioso.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: Arqueologia Americana (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 07/03/2019 às 10h20 | daltonmaziero@uol.com.br

CENTÉOTL – A DEUSA DO MILHO

Algumas civilizações da história, como a egípcia, hindu ou mesopotâmica, possuíram uma gama enorme de deuses, cada qual destinado a um fenômeno natural, sentimento, objeto ou ação. Da mesma forma, a antiga América também apresentou seu panteão de divindades com centenas de representantes para todas as classes e categorias imagináveis. Um dos mais importantes deuses americanos – chamado Centéotl – foi dedicado ao milho.

Na mitologia dos Mexicas (México), Centéotl era o deus do milho e patrono dos embriagados. Isso porque com o milho fermentado, se tirava uma bebida alcoólica espiritual, usada em rituais. Também devia sua importância ao fato de o milho ser uma das principais fontes de alimento na Mesoamérica. Um dado interessante desta entidade era sua dualidade sexual. Ele foi representado como homem (Centéotl) ou como mulher (Chicomecóatl).

Sua celebração ocorria no quarto mês mexica (Huey Tozoztli) e era associada ao milho seco, que serviria de semente para gerar na terra, novos milhos. Devido ao seu caráter germinador, a imagem desse deus remetia à fertilidade, agricultura, colheita, natureza, beleza e sexualidade. Embora existam várias versões de sua lenda, uma das mais correntes fala da entidade como filho de Piltzinteuctli e Xochiquétzal, que o geraram na terra, lugar onde Centéotl se escondia. Uma vez debaixo da terra, passa a germinar outras plantas com suas características. Dessa forma, seus cabelos – fios loiros da espiga – geraram o algodão; assim como seus dedos geraram os camotes (batata doce). Por essa contribuição, o deus do milho é chamado comumente de “Deus Amado”.

Existiam vários cultos dedicados a Centéotl. Em um deles, os grãos secos do milho eram agrupados em sete unidades, e levados ao templo de Chicomecóatl. Aqueles grãos “abençoados” seriam então armazenados e posteriormente utilizados nos plantios. Existia também um ritual mais pessoal, onde cada agricultor recolhia os melhores grãos de seu próprio cultivo, secando-os. Esses grãos eram oferecidos à deusa em suas casas e depois utilizados como sementes em novo plantio.

O estudo representativo desse deus mesoamericano não é fácil, pois é possível que essa entidade dual represente também uma série de outras entidades partilhadas, ou seja, que Centéotl seja um conjunto de deusas. Algumas delas serial: Tlatlauhquicenteotl (deusa do milho vermelho); Iztaccenteotl (deusa do milho branco); Xilonen (fase de crescimento da espiga), entre outros. Da mesma forma, o deus foi ritualizado por outros grupos, como os totonacas, que para ele construíram cinco templos – inclusive no topo de montanhas – dedicando-lhe sacerdotes próprios e sacrifícios de animais, como coelhos e codornas.

Dalton Delfini Maziero é historiador, arqueólogo, explorador e escritor. Especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria. Autor de “Titicaca – Em Busca dos Antigos Mistérios Pré-Colombiano” e “Sacralizando o Solo: o uso simbólico e prático dos geoglifos sul-americanos”. Visite o Blog: ARQUEOLOGIA AMERICANA (http://arqueologiamericana.blogspot.com.br/)

Escrito por Dalton Delfini Maziero, 18/02/2019 às 09h52 | daltonmaziero@uol.com.br



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Dalton Delfini Maziero

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Historiador, arqueólogo, explorador, viajante, escritor e especialista em culturas pré-colombianas e história da pirataria.


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