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Setembro Amarelo em Balneário Camboriú: ações e programas na prevenção ao suicídio

 Balneário Camboriú registrou seis suicídios esse ano

Quinta, 19/9/2019 9:09.

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Renata Rutes 

Prevenir e conscientizar são ações que podem mudar vidas.

Por isso todos os anos, neste mês, acontece a campanha Setembro Amarelo, um alerta para combater o suicídio.

Em Balneário Camboriú o mês também é lembrado, com ações como iluminação de espaços públicos (prefeitura e Cristo Luz, por exemplo), palestras e debates e manifestações culturais. A cidade possui um posto do Centro de Valorização da Vida (CVV) e um programa municipal que já é referência para outras cidades, o Abraço à Vida, que em um ano realizou mais de oito mil atendimentos. Neste ano aconteceram, segundo dados do Abraço, seis suicídios. O último foi em agosto. Em 2018 foram 12; em 2017 foram 10 e em 2016 foram 11.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), todos os anos cerca de 800 mil pessoas cometem suicídio, sendo a segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. No Brasil o CVV estima que são 30 casos de suicídio por dia, fora os que não são notificados. Mundialmente os casos reduziram em quase 10% entre 2010 e 2016 (último ano da pesquisa), mas no Brasil o cenário é diferente: as taxas aumentaram em 7% nesse mesmo intervalo de tempo. 

Centro de Valorização à Vida (CVV)

André (esquerda) e voluntários do CVV BC.

Balneário Camboriú conta com um posto do CVV há quatro anos. Apesar de a cidade ter uma unidade, quando a pessoa liga para o Centro (188) cai na linha nacional, podendo ser atendido por voluntários de todo o Brasil. O voluntário porta-voz do CVV/BC, André Luiz dos Santos Pereira, atua há 13 anos no programa. Ele começou em 2006 no posto de Itajaí e há dois anos está na unidade de Balneário, que funciona na secretaria da Pessoa Idosa. 

“Conheci o CVV por um parente meu que fez o curso. Sempre gostei de fazer voluntariado e me sensibilizei, porque normalmente são ações de assistência física, e o CVV é um ‘pronto-socorro emocional’. Você dá o seu tempo para aliviar a angústia de outra pessoa. É um programa de prevenção, você acompanha a pessoa e a ajuda a sair dessa situação”, explica.

André salienta que o programa Abraço à Vida, da prefeitura de Balneário, ajuda bastante e ‘municipaliza’ as ações. 

“Com a prevenção os casos tendem a reduzir. Atendemos no CVV cerca de três milhões de casos, nos mais de 100 postos que temos. O público é variado, mas principalmente entre 15 e 29 anos. Porém, os idosos também ligam bastante. As mulheres costumam tentar mais (o suicídio), e os homens conseguem mais, pois procuram meios mais letais, de difícil socorro”, diz. 

Sobre o Setembro Amarelo, André opina que é uma forma da sociedade encarar que a depressão e o suicídio são problemas de saúde pública, que precisam de atenção. 

“O Brasil tem hoje mais de 30 casos de suicídio por dia, fora os que não são notificados. Ainda há muito tabu quanto a doenças mentais e emocionais, por isso precisamos reforçar e defender essa causa, sempre focando na prevenção e conscientização. A pessoa não quer morrer e sim matar o sofrimento, como não consegue aliviar essa dor, pensa no suicídio. O CVV é importante exatamente porque pode ser a ‘última porta a ser batida’ por essa pessoa. É uma grande responsabilidade”, comenta. 

O CVV está fazendo neste mês palestras em escolas de Balneário e região, além de ações em empresas, e no dia 1º de outubro irão à Câmara de Vereadores fazer o uso da tribuna, explicando os trabalhos que vêm sendo feito pela saúde emocional da população da cidade.

Hoje Balneário conta com 14 voluntários ativos que trabalham no posto do CVV/BC, mas há cerca de 30 ao total – alguns estão em treinamento. A meta é ter pelo menos 40. Haverá um curso na próxima semana (de 23 a 25 de setembro), das 18h45 às 22h30, na secretaria da Pessoa Idosa. O curso funciona como uma ‘apresentação’ do CVV e quem gostar segue para a etapa intensiva, que tem duração de dois meses e meio.

Debate dos psicólogos e psiquiatras na Uniavan e o público presente no evento.


 ABRAÇO à Vida

Ivanir e Christina.

A prefeitura de Balneário Camboriú possui uma série de programas focados na valorização da vida, e um deles é o Abraço à Vida, que trata da prevenção ao suicídio, funcionando 24h todos os dias (inclusive domingos e feriados) pelo número (47) 99982-2322. O programa pertence à secretaria de Inclusão Social e há um ano atende os moradores de Balneário. Segundo a secretária Christina Barichello, desde então já foram realizados mais de oito mil atendimentos, incluindo por telefone (WhatsApp) ou presencial. Há casos reincidentes também. 

“Estou fazendo uma pesquisa com alunos de Psicologia da Unisociesc para entender o perfil do suicida. A mulher tenta mais, mas o homem realmente faz, através de métodos mais violentos, como o uso da arma de fogo. Nos surpreendemos bastante também com o número de adolescentes e crianças”, diz. 

A coordenadora do programa, Ivanir Maciel, conta que atenderam um menino de sete anos que tomou medicamentos e precisou ser internado. 

“E ele sabia o que estava fazendo, tinha consciência”, afirma. Porém, o Abraço também tem casos positivos, como o de um maquiador profissional que tentou tirar a própria vida várias vezes, superou a depressão e hoje ministra oficinas na Casa da Mulher. Ele já auxilia na identificação de pessoas que precisam de ajuda e, como Christina descreve, se tornou ‘um braço do Abraço à Vida’.

Christina e Ivanir analisam que as crianças de hoje estão ‘muito precoces’ e que inicialmente viam que podiam atender a todos os grupos da mesma forma, mas com a experiência perceberam que cada nicho (adultos, idosos, adolescentes e crianças) precisa de uma atenção e tratamento específico. 

“No caso das crianças, por exemplo, os pais também precisam de acompanhamento. As crianças precisam de limites, há pais que abusam da permissividade. Mas o maior problema das crianças hoje é a substituição dos pais pela internet, tanto que é comum ver crianças em restaurantes vendo tablet, há carrinhos de bebês que já vêm com espaço para o aparelho. Os pais também precisam aprender e rever seus atos, uma criança menor de 12 anos não pode ser culpada por querer acabar com a própria vida”, analisa Christina. 

Os adolescentes, segundo elas, também são afetados pela ausência dos pais e pela falta de convívio familiar, substituindo isso pela internet. Christina vê que os pais precisam entender que não são somente amigos dos filhos e sim seus pais, que não podem ‘permitir e aceitar tudo’. “Precisamos resgatar a tradição do respeito. Um exemplo é até na escola, onde o professor era autoridade e hoje até apanha dos alunos”, salienta Ivanir.

A secretária e a coordenadora pontuam que já no caso dos adultos, 98% dos atendidos possuem alguma doença mental, como depressão e ansiedade, por exemplo. Elas afirma que a solidão também influencia, mas que boa parte deles têm algum problema psíquico. 

“Acompanhamos todos os casos que chegam até nós e oferecemos até 12 sessões de terapia. Alguns casos precisam de menos, outros mais. Hoje ainda não temos psiquiatra, mas temos a nossa médica, dra. Céres, que encaminha os casos psiquiátricos mais graves para o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou para clínicas. Mas já estamos em contato com a secretaria de Saúde e eles prometeram nos ajudar a conseguir um psiquiatra, o que deve acontecer em breve”, diz a secretária. O Abraço à Vida possui hoje quatro psicólogos que atuam de forma voluntária no programa e outros quatro que são funcionários da prefeitura. 

  • O programa conta com o grupo terapêutico Só Por Hoje que atende a comunidade toda terça-feira às 14h na Casa da Mulher (rua 2.850, nº 303, no Centro de Balneário)

Há ainda parceria com igrejas da cidade que realizam grupos durante toda a semana:

  • Igreja Planos da Graça (Avenida do Estado, nº 1.230, sala 4, Bairro Ariribá) realiza atendimento individual toda segunda das 18h às 19h15,
  • Casa da Família (rua Uganda, nº 312, Bairro das Nações) atende grupos toda terça das 14h às 17h,
  • Igreja da Família (Quinta Avenida, nº 1.574, Bairro dos Municípios) faz atendimentos terça-feira das 14h30 às 16h e quinta-feira das 9h às 11h,
  • Embaixada do Reino de Deus (rua 1.950, nº 915, Centro) toda quinta às 16h,
  • Bola de Neve (Avenida do Estado, nº 762, Bairro Ariribá) toda quinta às 20h
  • Sara Nossa Terra (rua Israel, nº 505, Bairro das Nações) faz atendimento individual todo sábado das 14h às 19h.

* Caso mais igrejas queiram abraçar a causa basta entrar em contato com o programa Abraço. 


Céres Felski é a médica do Abraço (CREMESC 5675) e opina que a tecnologia e a evolução que conectou a humanidade com o mundo acabaram também por distanciar as pessoas. 

“A velocidade das informações tornou-se causa de ansiedade e frustração. Hoje a depressão é uma das maiores causas de morte no mundo todo, e ainda permanece estigmatizada. Ainda se acha que depressão é frescura, fraqueza, falta do que fazer, etc. No entanto, sabemos que a depressão pode ser inclusive endógena, ou seja, causada por desequilíbrios hormonais e de vitaminas, por exemplo. E, mais importante que tudo, sabemos que há tratamento. Por isso a importância do Setembro Amarelo, que desmistifica a depressão, faz as pessoas falarem sobre o assunto e mostra que há saída. O meu trabalho no programa é conferir este olhar médico sobre a depressão, procurando outras causas possíveis e fazendo a ponte com os serviços de saúde do município. Assim, as pessoas que nos procuram passam por uma triagem comigo e, conforme o caso, são direcionadas para atendimento especializado (psicologia, psiquiatria, caps) ou mesmo para serviço de emergência em caso de risco imediato. Além disso também temos grupos de apoio que auxiliam no processo, como o Só por Hoje. A maioria do público atendido é feminino, mas isso também está de acordo com os atendimentos gerais em saúde: as mulheres sempre procuram mais os serviços de saúde do que os homens. Por outro lado, estatisticamente, são os homens que mais morrem (de várias causas, inclusive o suicídio), isso justamente pelo mito de "homem tem que ser forte", que os amordaça e impede que procurem ajuda.”


 

O parapsicólogo Eduardo Carvalho esteve em Balneário Camboriú na última semana, para palestrar na Uniavan, em um evento realizado em parceria entre a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Balneário em parceria com o CVV e com a instituição de ensino. 

Eduardo abriu sua fala lembrando que a alegria é a vontade de vida, e a tristeza a vontade da morte. Ele citou a tríade trágico: sofrimento, culpa e morte, que diminuem a potência de viver, salientando que a morte é um medo e pode afetar as pessoas de várias formas, inclusive explicando que o mundo não é perfeito e que essa pode ser a desilusão de várias pessoas, levando inclusive ao suicídio.

 “Há quem não sabe lidar com as expectativas que não se realizam. Tudo pode escapar a qualquer momento e há quem acha que suicídio é solução. É normal termos problemas. A angústia pode parecer ser eterna, mas não é. Ela passa, a vida é movimento. Falar sobre (fazer terapia) é transcender. Ter dias bons e maus, alegres e tristes, é estar vivo”, disse.

Eduardo também opinou sobre a fé, defendendo que é a tentativa de entender o absurdo, como a morte. 

“A sociedade proíbe o sofrimento e ele precisa ser vivido. As pessoas precisam entender que depressão é doença, não é falta de Deus ou do que fazer. Quem sofre com problemas psicológicos precisa de acompanhamento profissional, precisa mudar e não anestesiar o que sente. Você tem que atribuir um sentido para a sua vida, porque a vida em si não tem sentido”, explicou. 


Opiniões de psicólogos e psiquiatras

A programação do evento da CDL e do CVV contou também com uma conversa com os especialistas Eliz Marine Wiggers, mestre em psicologia; o psicólogo Gustavo Angeli e os psiquiatras Vanessa Adegas e Mario José Bisi Junior

Eles citaram a importância de se falar sobre a prevenção ao suicídio, para tentar acabar com o tabu que ainda existe sobre o assunto. 

“Mas não é só em setembro que devemos falar sobre saúde mental”, disse Mário José. Vanessa concordou e lembrou que ‘se as pessoas cuidam do corpo quando estão doentes, por que não cuidam da mente quando estão com depressão ou algum problema psicológico?’. 

Segundo os especialistas, há picos de depressão e tentativa de suicídio atualmente entre os 14 e 17 anos e entre os idosos, salientando ainda que ‘crianças também cometem suicídio’. “O suicídio é um ato impulsivo para acabar com a dor, pode ser causado por transtornos psicológicos como ainda por uso de drogas, álcool, brigas, problemos financeiros. E a automutilação é um alerta, mostra que a pessoa tem a intenção de morrer”, explicou a psiquiatra Vanessa.

O principal tema discutido foi o acesso à tratamento psicológico e as dificuldades encontradas com o SUS. Mário lembrou que a psiquiatria brasileira é uma das melhores do mundo, mas que só é acessada por quem pode pagar. 

“Somos tão respeitados a ponto de um psiquiatra brasileiro ter ajudado a produção da série 13 Reasons Why, da Netflix, que foi bastante criticada pela ‘indução’ ao suicídio na primeira temporada e na segunda eles tiveram uma assessoria de psiquiatras, entre eles esse brasileiro”, contou o psiquiatra. Sobre Balneário, eles opinaram que o programa municipal Abraço à Vida, não tem uma continuidade, porque os pacientes não chegam até o atendimento psiquiátrico. 

“Balneário Camboriú não tem ambulatórios psiquiátricos. O CAPS não é para diagnósticos leves e médios, só para casos mais complexos. A maioria das pessoas não chega ao psiquiatra. O SUS também deveria atender os casos mais leves, que estão começando, e não só quando a pessoa está em crise e tenta tirar a própria vida. Só abraçar não minimiza o sofrimento”, opinou Mário. 

Um psicólogo que estava na platéia disse que o Abraço não dá ‘sequência’ aos seus atendimentos, falando que o programa é ‘apenas propaganda’. 

“É um programinha bonitinho, mas os atendimentos são apenas pontuais. A saúde mental não está sendo prioridade em Balneário Camboriú”, disse.

Os psicólogos Eliz e Gustavo, que são professores do curso de Psicologia da Uniavan, opinaram ainda sobre a necessidade dos futuros psicólogos (alunos que assistiram a palestra) escutarem os pacientes sem colocar juízo de valor. 

“É preciso empatia com o outro”, disse Eliz. 


Manifestações culturais

Artistas da cidade estão realizando manifestações em prol do Setembro Amarelo, como o grafiteiro Luis Felipe Berejuk. Ele prepara-se para pintar o painel ‘Jardim de Girassóis’, na Estrada da Rainha. A obra é inspirada nos girassóis de Van Gogh e quer homenagear todas as pessoas que vivenciam ou já vivenciaram situações ligadas ao suicídio. 

A ideia de Berejuk é grafitar o muro ainda em setembro, mas depende de condições climáticas. Esta semana ele começou a limpar o muro, para receber o grafite, mas teve que parar por conta da chuva. 

Outra ação que foi transferida por causa da maré, está reprogramada para este sábado (21), das 5h às 8h, se não chover. É a mandala ‘Filtro da Vida’, que será feita pelo pessoal da Art In Loco nas proximidades da praça Almirante Tamandaré, na faixa de areia da Praia Central. A Art In Loco é um escritório de arte, arquitetura e design, comandado pelos arquitetos e artistas Bruno Thome e Lucas Farias.

O projeto da mandala, segundo os artistas, possui uma forte simbologia com a busca interna profissional e pessoal da dupla. 

“Isso fica claro com a centralização que a mandala possui, de forma a simbolizar a busca por uma parte nossa que não podemos ver fisicamente, ou seja, a busca pela nossa essência, nossa luz, nos ligando com um poder maior e ‘divino’. A confecção desta arte funciona como uma espécie de meditação, como um processo artístico terapêutico que tem a capacidade de nos curar e nos alinhar em nossas buscas. A mandala simboliza nosso espírito que tem a vontade de viver”, explicam. Caso chova, a mandala será produzida em outro dia, em data a ser divulgada.


 


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Setembro Amarelo em Balneário Camboriú: ações e programas na prevenção ao suicídio

 Balneário Camboriú registrou seis suicídios esse ano

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Quinta, 19/9/2019 9:09.

Renata Rutes 

Prevenir e conscientizar são ações que podem mudar vidas.

Por isso todos os anos, neste mês, acontece a campanha Setembro Amarelo, um alerta para combater o suicídio.

Em Balneário Camboriú o mês também é lembrado, com ações como iluminação de espaços públicos (prefeitura e Cristo Luz, por exemplo), palestras e debates e manifestações culturais. A cidade possui um posto do Centro de Valorização da Vida (CVV) e um programa municipal que já é referência para outras cidades, o Abraço à Vida, que em um ano realizou mais de oito mil atendimentos. Neste ano aconteceram, segundo dados do Abraço, seis suicídios. O último foi em agosto. Em 2018 foram 12; em 2017 foram 10 e em 2016 foram 11.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), todos os anos cerca de 800 mil pessoas cometem suicídio, sendo a segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. No Brasil o CVV estima que são 30 casos de suicídio por dia, fora os que não são notificados. Mundialmente os casos reduziram em quase 10% entre 2010 e 2016 (último ano da pesquisa), mas no Brasil o cenário é diferente: as taxas aumentaram em 7% nesse mesmo intervalo de tempo. 

Centro de Valorização à Vida (CVV)

André (esquerda) e voluntários do CVV BC.

Balneário Camboriú conta com um posto do CVV há quatro anos. Apesar de a cidade ter uma unidade, quando a pessoa liga para o Centro (188) cai na linha nacional, podendo ser atendido por voluntários de todo o Brasil. O voluntário porta-voz do CVV/BC, André Luiz dos Santos Pereira, atua há 13 anos no programa. Ele começou em 2006 no posto de Itajaí e há dois anos está na unidade de Balneário, que funciona na secretaria da Pessoa Idosa. 

“Conheci o CVV por um parente meu que fez o curso. Sempre gostei de fazer voluntariado e me sensibilizei, porque normalmente são ações de assistência física, e o CVV é um ‘pronto-socorro emocional’. Você dá o seu tempo para aliviar a angústia de outra pessoa. É um programa de prevenção, você acompanha a pessoa e a ajuda a sair dessa situação”, explica.

André salienta que o programa Abraço à Vida, da prefeitura de Balneário, ajuda bastante e ‘municipaliza’ as ações. 

“Com a prevenção os casos tendem a reduzir. Atendemos no CVV cerca de três milhões de casos, nos mais de 100 postos que temos. O público é variado, mas principalmente entre 15 e 29 anos. Porém, os idosos também ligam bastante. As mulheres costumam tentar mais (o suicídio), e os homens conseguem mais, pois procuram meios mais letais, de difícil socorro”, diz. 

Sobre o Setembro Amarelo, André opina que é uma forma da sociedade encarar que a depressão e o suicídio são problemas de saúde pública, que precisam de atenção. 

“O Brasil tem hoje mais de 30 casos de suicídio por dia, fora os que não são notificados. Ainda há muito tabu quanto a doenças mentais e emocionais, por isso precisamos reforçar e defender essa causa, sempre focando na prevenção e conscientização. A pessoa não quer morrer e sim matar o sofrimento, como não consegue aliviar essa dor, pensa no suicídio. O CVV é importante exatamente porque pode ser a ‘última porta a ser batida’ por essa pessoa. É uma grande responsabilidade”, comenta. 

O CVV está fazendo neste mês palestras em escolas de Balneário e região, além de ações em empresas, e no dia 1º de outubro irão à Câmara de Vereadores fazer o uso da tribuna, explicando os trabalhos que vêm sendo feito pela saúde emocional da população da cidade.

Hoje Balneário conta com 14 voluntários ativos que trabalham no posto do CVV/BC, mas há cerca de 30 ao total – alguns estão em treinamento. A meta é ter pelo menos 40. Haverá um curso na próxima semana (de 23 a 25 de setembro), das 18h45 às 22h30, na secretaria da Pessoa Idosa. O curso funciona como uma ‘apresentação’ do CVV e quem gostar segue para a etapa intensiva, que tem duração de dois meses e meio.

Debate dos psicólogos e psiquiatras na Uniavan e o público presente no evento.


 ABRAÇO à Vida

Ivanir e Christina.

A prefeitura de Balneário Camboriú possui uma série de programas focados na valorização da vida, e um deles é o Abraço à Vida, que trata da prevenção ao suicídio, funcionando 24h todos os dias (inclusive domingos e feriados) pelo número (47) 99982-2322. O programa pertence à secretaria de Inclusão Social e há um ano atende os moradores de Balneário. Segundo a secretária Christina Barichello, desde então já foram realizados mais de oito mil atendimentos, incluindo por telefone (WhatsApp) ou presencial. Há casos reincidentes também. 

“Estou fazendo uma pesquisa com alunos de Psicologia da Unisociesc para entender o perfil do suicida. A mulher tenta mais, mas o homem realmente faz, através de métodos mais violentos, como o uso da arma de fogo. Nos surpreendemos bastante também com o número de adolescentes e crianças”, diz. 

A coordenadora do programa, Ivanir Maciel, conta que atenderam um menino de sete anos que tomou medicamentos e precisou ser internado. 

“E ele sabia o que estava fazendo, tinha consciência”, afirma. Porém, o Abraço também tem casos positivos, como o de um maquiador profissional que tentou tirar a própria vida várias vezes, superou a depressão e hoje ministra oficinas na Casa da Mulher. Ele já auxilia na identificação de pessoas que precisam de ajuda e, como Christina descreve, se tornou ‘um braço do Abraço à Vida’.

Christina e Ivanir analisam que as crianças de hoje estão ‘muito precoces’ e que inicialmente viam que podiam atender a todos os grupos da mesma forma, mas com a experiência perceberam que cada nicho (adultos, idosos, adolescentes e crianças) precisa de uma atenção e tratamento específico. 

“No caso das crianças, por exemplo, os pais também precisam de acompanhamento. As crianças precisam de limites, há pais que abusam da permissividade. Mas o maior problema das crianças hoje é a substituição dos pais pela internet, tanto que é comum ver crianças em restaurantes vendo tablet, há carrinhos de bebês que já vêm com espaço para o aparelho. Os pais também precisam aprender e rever seus atos, uma criança menor de 12 anos não pode ser culpada por querer acabar com a própria vida”, analisa Christina. 

Os adolescentes, segundo elas, também são afetados pela ausência dos pais e pela falta de convívio familiar, substituindo isso pela internet. Christina vê que os pais precisam entender que não são somente amigos dos filhos e sim seus pais, que não podem ‘permitir e aceitar tudo’. “Precisamos resgatar a tradição do respeito. Um exemplo é até na escola, onde o professor era autoridade e hoje até apanha dos alunos”, salienta Ivanir.

A secretária e a coordenadora pontuam que já no caso dos adultos, 98% dos atendidos possuem alguma doença mental, como depressão e ansiedade, por exemplo. Elas afirma que a solidão também influencia, mas que boa parte deles têm algum problema psíquico. 

“Acompanhamos todos os casos que chegam até nós e oferecemos até 12 sessões de terapia. Alguns casos precisam de menos, outros mais. Hoje ainda não temos psiquiatra, mas temos a nossa médica, dra. Céres, que encaminha os casos psiquiátricos mais graves para o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) ou para clínicas. Mas já estamos em contato com a secretaria de Saúde e eles prometeram nos ajudar a conseguir um psiquiatra, o que deve acontecer em breve”, diz a secretária. O Abraço à Vida possui hoje quatro psicólogos que atuam de forma voluntária no programa e outros quatro que são funcionários da prefeitura. 

  • O programa conta com o grupo terapêutico Só Por Hoje que atende a comunidade toda terça-feira às 14h na Casa da Mulher (rua 2.850, nº 303, no Centro de Balneário)

Há ainda parceria com igrejas da cidade que realizam grupos durante toda a semana:

  • Igreja Planos da Graça (Avenida do Estado, nº 1.230, sala 4, Bairro Ariribá) realiza atendimento individual toda segunda das 18h às 19h15,
  • Casa da Família (rua Uganda, nº 312, Bairro das Nações) atende grupos toda terça das 14h às 17h,
  • Igreja da Família (Quinta Avenida, nº 1.574, Bairro dos Municípios) faz atendimentos terça-feira das 14h30 às 16h e quinta-feira das 9h às 11h,
  • Embaixada do Reino de Deus (rua 1.950, nº 915, Centro) toda quinta às 16h,
  • Bola de Neve (Avenida do Estado, nº 762, Bairro Ariribá) toda quinta às 20h
  • Sara Nossa Terra (rua Israel, nº 505, Bairro das Nações) faz atendimento individual todo sábado das 14h às 19h.

* Caso mais igrejas queiram abraçar a causa basta entrar em contato com o programa Abraço. 


Céres Felski é a médica do Abraço (CREMESC 5675) e opina que a tecnologia e a evolução que conectou a humanidade com o mundo acabaram também por distanciar as pessoas. 

“A velocidade das informações tornou-se causa de ansiedade e frustração. Hoje a depressão é uma das maiores causas de morte no mundo todo, e ainda permanece estigmatizada. Ainda se acha que depressão é frescura, fraqueza, falta do que fazer, etc. No entanto, sabemos que a depressão pode ser inclusive endógena, ou seja, causada por desequilíbrios hormonais e de vitaminas, por exemplo. E, mais importante que tudo, sabemos que há tratamento. Por isso a importância do Setembro Amarelo, que desmistifica a depressão, faz as pessoas falarem sobre o assunto e mostra que há saída. O meu trabalho no programa é conferir este olhar médico sobre a depressão, procurando outras causas possíveis e fazendo a ponte com os serviços de saúde do município. Assim, as pessoas que nos procuram passam por uma triagem comigo e, conforme o caso, são direcionadas para atendimento especializado (psicologia, psiquiatria, caps) ou mesmo para serviço de emergência em caso de risco imediato. Além disso também temos grupos de apoio que auxiliam no processo, como o Só por Hoje. A maioria do público atendido é feminino, mas isso também está de acordo com os atendimentos gerais em saúde: as mulheres sempre procuram mais os serviços de saúde do que os homens. Por outro lado, estatisticamente, são os homens que mais morrem (de várias causas, inclusive o suicídio), isso justamente pelo mito de "homem tem que ser forte", que os amordaça e impede que procurem ajuda.”


 

O parapsicólogo Eduardo Carvalho esteve em Balneário Camboriú na última semana, para palestrar na Uniavan, em um evento realizado em parceria entre a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Balneário em parceria com o CVV e com a instituição de ensino. 

Eduardo abriu sua fala lembrando que a alegria é a vontade de vida, e a tristeza a vontade da morte. Ele citou a tríade trágico: sofrimento, culpa e morte, que diminuem a potência de viver, salientando que a morte é um medo e pode afetar as pessoas de várias formas, inclusive explicando que o mundo não é perfeito e que essa pode ser a desilusão de várias pessoas, levando inclusive ao suicídio.

 “Há quem não sabe lidar com as expectativas que não se realizam. Tudo pode escapar a qualquer momento e há quem acha que suicídio é solução. É normal termos problemas. A angústia pode parecer ser eterna, mas não é. Ela passa, a vida é movimento. Falar sobre (fazer terapia) é transcender. Ter dias bons e maus, alegres e tristes, é estar vivo”, disse.

Eduardo também opinou sobre a fé, defendendo que é a tentativa de entender o absurdo, como a morte. 

“A sociedade proíbe o sofrimento e ele precisa ser vivido. As pessoas precisam entender que depressão é doença, não é falta de Deus ou do que fazer. Quem sofre com problemas psicológicos precisa de acompanhamento profissional, precisa mudar e não anestesiar o que sente. Você tem que atribuir um sentido para a sua vida, porque a vida em si não tem sentido”, explicou. 


Opiniões de psicólogos e psiquiatras

A programação do evento da CDL e do CVV contou também com uma conversa com os especialistas Eliz Marine Wiggers, mestre em psicologia; o psicólogo Gustavo Angeli e os psiquiatras Vanessa Adegas e Mario José Bisi Junior

Eles citaram a importância de se falar sobre a prevenção ao suicídio, para tentar acabar com o tabu que ainda existe sobre o assunto. 

“Mas não é só em setembro que devemos falar sobre saúde mental”, disse Mário José. Vanessa concordou e lembrou que ‘se as pessoas cuidam do corpo quando estão doentes, por que não cuidam da mente quando estão com depressão ou algum problema psicológico?’. 

Segundo os especialistas, há picos de depressão e tentativa de suicídio atualmente entre os 14 e 17 anos e entre os idosos, salientando ainda que ‘crianças também cometem suicídio’. “O suicídio é um ato impulsivo para acabar com a dor, pode ser causado por transtornos psicológicos como ainda por uso de drogas, álcool, brigas, problemos financeiros. E a automutilação é um alerta, mostra que a pessoa tem a intenção de morrer”, explicou a psiquiatra Vanessa.

O principal tema discutido foi o acesso à tratamento psicológico e as dificuldades encontradas com o SUS. Mário lembrou que a psiquiatria brasileira é uma das melhores do mundo, mas que só é acessada por quem pode pagar. 

“Somos tão respeitados a ponto de um psiquiatra brasileiro ter ajudado a produção da série 13 Reasons Why, da Netflix, que foi bastante criticada pela ‘indução’ ao suicídio na primeira temporada e na segunda eles tiveram uma assessoria de psiquiatras, entre eles esse brasileiro”, contou o psiquiatra. Sobre Balneário, eles opinaram que o programa municipal Abraço à Vida, não tem uma continuidade, porque os pacientes não chegam até o atendimento psiquiátrico. 

“Balneário Camboriú não tem ambulatórios psiquiátricos. O CAPS não é para diagnósticos leves e médios, só para casos mais complexos. A maioria das pessoas não chega ao psiquiatra. O SUS também deveria atender os casos mais leves, que estão começando, e não só quando a pessoa está em crise e tenta tirar a própria vida. Só abraçar não minimiza o sofrimento”, opinou Mário. 

Um psicólogo que estava na platéia disse que o Abraço não dá ‘sequência’ aos seus atendimentos, falando que o programa é ‘apenas propaganda’. 

“É um programinha bonitinho, mas os atendimentos são apenas pontuais. A saúde mental não está sendo prioridade em Balneário Camboriú”, disse.

Os psicólogos Eliz e Gustavo, que são professores do curso de Psicologia da Uniavan, opinaram ainda sobre a necessidade dos futuros psicólogos (alunos que assistiram a palestra) escutarem os pacientes sem colocar juízo de valor. 

“É preciso empatia com o outro”, disse Eliz. 


Manifestações culturais

Artistas da cidade estão realizando manifestações em prol do Setembro Amarelo, como o grafiteiro Luis Felipe Berejuk. Ele prepara-se para pintar o painel ‘Jardim de Girassóis’, na Estrada da Rainha. A obra é inspirada nos girassóis de Van Gogh e quer homenagear todas as pessoas que vivenciam ou já vivenciaram situações ligadas ao suicídio. 

A ideia de Berejuk é grafitar o muro ainda em setembro, mas depende de condições climáticas. Esta semana ele começou a limpar o muro, para receber o grafite, mas teve que parar por conta da chuva. 

Outra ação que foi transferida por causa da maré, está reprogramada para este sábado (21), das 5h às 8h, se não chover. É a mandala ‘Filtro da Vida’, que será feita pelo pessoal da Art In Loco nas proximidades da praça Almirante Tamandaré, na faixa de areia da Praia Central. A Art In Loco é um escritório de arte, arquitetura e design, comandado pelos arquitetos e artistas Bruno Thome e Lucas Farias.

O projeto da mandala, segundo os artistas, possui uma forte simbologia com a busca interna profissional e pessoal da dupla. 

“Isso fica claro com a centralização que a mandala possui, de forma a simbolizar a busca por uma parte nossa que não podemos ver fisicamente, ou seja, a busca pela nossa essência, nossa luz, nos ligando com um poder maior e ‘divino’. A confecção desta arte funciona como uma espécie de meditação, como um processo artístico terapêutico que tem a capacidade de nos curar e nos alinhar em nossas buscas. A mandala simboliza nosso espírito que tem a vontade de viver”, explicam. Caso chova, a mandala será produzida em outro dia, em data a ser divulgada.


 


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